No CaVG, em Pelotas, a moda é mais do que qualificação profissional: é também pesquisa e cultura

Cursos preperam mão de obra para o mercado e incentivam pensar a moda como forma de expressão. (Foto: Julia Barcelos/JTR)

Mais do que vestuário, a moda é uma forma de arte e expressão – individual ou coletiva – que se reinventa a cada geração, acompanhando transformações sociais, culturais e identitárias. A fim de capacitar profissionais para esse setor, o Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul) oferece os cursos Técnico em Vestuário e Superior em Design de Moda, que unem a tradição, a pesquisa e a inovação. Ambos os cursos, gratuitos e com nota 4 no Ministério da Educação, são sediados no campus Visconde da Graça (CaVG), em Pelotas.

O curso técnico, criado em 1999, funciona atualmente na modalidade integrada ao Ensino Médio, com aulas nos turnos da manhã e da tarde. Já o curso superior, que completou 10 anos em 2024, é ofertado no turno da noite e tem atraído estudantes de diversos estados.

A Tecidoteca é um ambiente voltado para a inovação e pesquisa. (Foto: Julia Barcelos/JTR)

“A procura é grande, e nosso vestibular é bastante concorrido. A formação é ampla, com disciplinas que vão da modelagem manual à modelagem digital, do desenho à construção de marcas”, explica a professora mestre em Design, Educação e Inovação, Aline Maria Machado.

Um dos pilares das formações é a integração entre teoria, prática e tecnologia. Os alunos aprendem desde técnicas tradicionais de costura até o uso de ferramentas digitais para design e desenvolvimento de coleção. O espaço da Tecidoteca, criado em 2016, reforça essa proposta, funcionando como laboratório e acervo têxtil com centenas de amostras de tecidos catalogadas por tipo, composição e uso.

Na Tecidoteca, os estudantes desenvolvem pesquisas, treinam o olhar técnico e trabalham com a comunidade por meio de projetos de extensão. “Temos lentes de ampliação, contamos fios, estudamos gramatura e toque. Também usamos o espaço para cursos de corte e costura com a EJA (Ensino para Jovens e Adultos), e projetos de reciclagem têxtil. Tudo isso aproxima o aluno da realidade do setor e o conecta com a comunidade”, conta a docente.

A grade dos cursos também se preocupa em acompanhar as novas dinâmicas do mercado, que vão muito além das passarelas. As disciplinas de Marketing e Empreendedorismo ajudam alunos a criarem seus próprios negócios. Segundo Aline Maria, muitos egressos dos cursos já lançaram marcas próprias ou atuam em grandes centros, como São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina.

“Hoje em dia, você não precisa ter uma loja física. Com as redes sociais e o e-commerce, é possível vender para o mundo inteiro. Isso muda tudo. A moda se tornou um campo de inovação, com novos formatos de venda, produção sustentável e consumo consciente”, observa a professora.

“Pelotas poderia se tornar um polo de inovação em moda”, afirmou a professora mestre em Design, Educação e Inovação, Aline Maria Machado. (Foto: Julia Barcelos/JTR)

A moda como forma de expressão
Além de preparar para o trabalho, os cursos também propõem reflexões sobre estética, identidade e pertencimento. “A moda hoje é multicultural, global, mas também muito pessoal. As pessoas buscam se expressar por meio do vestir. E o nosso curso forma profissionais capazes de entender essas mudanças e propor soluções criativas e éticas”, afirma Aline Maria.

Um dos destaques mais recentes é o projeto de confecção de figurinos para a apresentação do espetáculo “Dança dos Orixás”. Financiado por edital público no valor de R$ 12,6 mil, o projeto envolve alunos de vários semestres do curso de Design de Moda e combina pesquisa cultural, criação coletiva e inovação em figurino cênico. Cada figurino é pensado com base nas cores, elementos e simbologias associados aos orixás representados, sendo eles Iemanjá, Xangô, Ogum, Oxum, Iansã, Oxalá e Oxóssi.

“Estamos confeccionando figurinos de sete orixás, com entrega prevista para novembro. O processo inclui pesquisa de campo, modelagem, escolha dos tecidos e confecção. Tudo feito pelos alunos. Além de fortalecer o combate ao racismo religioso, o projeto trabalha competências técnicas e criativas que eles vão levar para o mercado”, destaca a professora.

A iniciativa segue a linha de usar a moda como meio de inovação social e cultural. Outros projetos neste sentido são as oficinas de customização de abadás, as exposições sobre vestuário afro-brasileiro, os clubes de leitura e o projeto de artesanato afro e economia solidária no Quilombo da Valvira, voltado à geração de renda por meio de técnicas ancestrais e tecidos reciclados.

Apesar dos avanços no ensino e extensão, a professora ainda reforça a falta de políticas públicas e investimentos para consolidar a moda como setor estratégico no município. “A cadeia da moda é ampla, envolve desde a produção do fio até a entrega do produto final. Se houvesse mais incentivo, mais confecções, mais apoio à pesquisa, Pelotas poderia se tornar um polo de inovação em moda sustentável”, afirma ela.

Nas oficinas do CaVG estão sendo preparados os figurinos do espetáculo “Dança dos Orixás”. (Foto: Julia Barcelos/JTR)