
Quando a sede da Associação Comercial inaugurou em 1942, tomar cafezinho naquela esquina da 7 de Setembro com a 15 de Novembro já era tradição, desde antes de o local ser térreo do prédio de nove andares.
Ainda não era o Café Aquários, nome que recebeu depois, era ainda o Café Nacional, nome do antigo estabelecimento da esquina, que inclusive aparece em algumas fotos tiradas alguns anos antes, quando Zeca Neto cruzou por ali a cavalo, na conquista de Pelotas. Episódio também conhecido como a “Tomada”, que, dito assim nos dias de hoje, poderia indicar algum plug pronto para carregar o celular e não uma tomada de poder, que, aliás, como a outra, também pode dar choques.

A tradição regional do bate-papo e do cafezinho naquele ponto da cidade era tanta, que o próprio Dr. Bruno Mendonça Lima, advogado da Associação, fez constar no regimento do prédio que a esquina envidraçada era exclusivamente destinada a ser um café, coisa que, anos depois, mostrou-se prudente, já que mais de uma agência bancária cobiçou, assediou e não levou o ponto, que hoje ainda serve aos propósitos originais e, felizmente, não seria transformado em banco, lotérica, farmácia ou coisa parecida.
Não significa que ali não existam transações. Sempre lá estiveram entre o sorver de um café e outro. Durante muitos anos, havia mesas nas quais — informalmente — atuavam os “juristas do café”. Eufemismo para os agiotas que, sem pagar aluguel, lá negociavam seus empréstimos com seus altos juros (daí os juristas).
Não sendo farmácia, incontáveis vezes se via, e não raro ainda se vê, alguém abordar um médico de confiança e de lá sair com uma receita de medicamento rumo à drogaria mais próxima.
Ali também é a mais velha fonte da economia criativa de Pelotas, onde incontáveis ideias de negócios — que prosperaram ou não — são debatidas no balcão ou nas mesas.
Em suma, esse espaço histórico de Pelotas pode ser considerado como nossa Catedral da Economia Criativa, ponto de encontro, escritório de tantos, local de acertos e desacertos, onde tantas esperanças circulam em meio a xícaras fumegantes.
Ali já testemunhei brigas, reconciliações, transmissões de rádio, venda de móveis, de imóveis, automóveis, espécie de porto onde os que voltam para Pelotas reencontram fragmentos do seu próprio passado em meio ao gosto do café coado e ao seu perfume forte, que dá um cheiro próprio àquele marco da cidade, aquele mesmo aroma que circula entre as mesas e balcões desde que aquela esquina abriu suas portas ao mundo.



