Instituições pelotenses contribuem com o ensino e a pesquisa agropecuária há mais de cem anos

Pesquisas tanto da Faem como da Embrapa contribuem para o desenvolvimento de cadeias produtivas essenciais para a região como o arroz e a fruticultura. (Foto: Raquel Bierhals)

Ao longo dos seus 213 anos, a vocação agropecuária do município de Pelotas sempre esteve em evidência, contribuindo com parcela significativa na economia local e obtendo rentabilidades que se destacam no cenário estadual, como é o caso do arroz. Muitos dos resultados nesta área podem ser atribuídos a duas importantes instituições de ensino e pesquisa local, a Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel, que completa este ano, 142 anos de fundação e a Embrapa Clima Temperado, presente na região há, pelo menos, 87 anos.

O chefe-geral da Embrapa Waldyr Stumpf Júnior, destaca que a pesquisa agropecuária na região é histórica, começou em 1938, com a Estação Experimental de Viticultura, que trabalhava basicamente produtos ligados à agricultura familiar, fruticultura e outros produtos, na área de olericultura, onde hoje é a Estação Experimental da Cascata.

“A pesquisa agropecuária sempre foi basilar e fundamental para a região e a partir dela, se desenvolve toda uma cadeia produtiva das frutas, como o pêssego, frutas de caroço como carro-chefe que se expandiu para outras frutas por intermédio da Embrapa Clima Temperado que chegam a outras regiões do País, como o Sudeste e até ao Nordeste brasileiro, através de nossos licenciados”, ressaltou.

Nas terras baixas, tem todo um trabalho de pesquisa envolvendo o arroz e culturas em rotação com ele. “Onde hoje é a Estação Experimental Terras Baixas se trabalhava basicamente com arroz, mas também se pesquisou olericultura, feijão durante muitos anos, milho, sorgo, soja, trigo, culturas também de inverno, e a pecuária leiteira”, afirmou.

A Embrapa Clima Temperado tem uma história muito longa nesta região, e de alguma forma, ela alicerçou um conjunto de cadeias produtivas, destacou Stumpf. “As cadeias produtivas do pêssego e das pequenas frutas têm origem aqui na nossa região.” Todo o pêssego disponibilizado tanto para a indústria quanto para mesa no País tem no programa de melhoramento genético da Embrapa a sua base.

O programa de melhoramento genético da batata para o Brasil inteiro também é coordenado pela Embrapa local, diz o chefe-geral. “É uma referência para a produção de cultivares de batata para atender tanto o consumo de mesa como para a indústria”, disse. “Nas pequenas frutas, o morango, principalmente a cultivar BRS Fênix está ganhando espaço fantástico no país inteiro”, acrescenta.

O programa de melhoramento genético para o morango da unidade tem licenciados até na Bahia, assim como amora e mirtilo. Em relação a terras baixas, a Embrapa trabalha forte no programa de melhoramento de arroz, com mais de 32 cultivares do cereal lançadas e que têm um percentual expressivo na produção do Rio Grande do Sul, que abastece 70% do arroz consumido no Brasil.

A Embrapa Clima Temperado atende a pesquisa a partir de Pelotas como centro ecorregional até o centro do Paraná, com estrutura muito forte na questão do solo, da água, do clima, uso de tecnologias de geoprocessamento e imagens de satélite. Participa ainda, de programas de políticas públicas principalmente de zoneamento agropecuário de risco climático (Zarc). O objetivo é fazer com que as soluções tecnológicas geradas cheguem ao produtor e às cadeias produtivas como forma de geração de emprego, renda e sustentabilidade ambiental.

Stumpf citou que são muitas tecnologias e elenca como basilares a fruticultura e olericultura, arroz e demais culturas de terras baixas e cadeia produtiva do leite, segundo ele, a melhor estrutura em pesquisa da pecuária leiteira do Sul do Brasil. “Essas tecnologias ampliaram o uso das terras baixas, antes destinadas apenas para arroz e pecuária, entre elas, os camalhões de base estreita e base larga, que introduziram a produção de milho, soja, culturas de inverno nas terras baixas, que representam em torno de 4 a 5 mil hectares na região Sul como um todo e um milhão anualmente é plantado arroz”, disse.

Programa de melhoramento genético do pêssego, desenvolvido pela Embrapa,
qualificou a cadeia produtiva regional. (Foto: Paulo Lanzetta)

Faem/UFPel forma profissionais da área agronômica há 142 anos
A Faculdade de Agronomia Eliseu Maciel (Faem) é denominada carinhosamente como a mãe da UFPel, pois dela se originaram diversos Institutos, Faculdade e, atualmente, Centros, observa o diretor Dirceu Agostinetto. Segundo ele, a Faem completa neste ano, em 8 de dezembro, 142 anos de atividades ininterruptas e, neste período, já diplomou 6.149 engenheiros agrônomos, num total de 156 turmas e 325 zootecnistas, 22 turmas. “Na Pós-graduação titulou 4.001 profissionais nos níveis de Mestrado profissionalizante, Mestrado e Doutorado Acadêmico”, pontuou.

Agostinetto contou, ainda, que a Faem dispõe, atualmente, de 102 professores e 46 técnicos administrativos em educação. Em nível de Pós-graduação, oferece Mestrado e Doutorado vinculados aos Programas de Pós-Graduação em Agronomia, Fitossanidade, Ciência e Tecnologia de Sementes, Ciência e Tecnologia de Alimentos, Manejo e Conservação do Solo e da Água, Sistema de Produção Agrícola Familiar e Zootecnia; Mestrado em Desenvolvimento Territorial e Sistemas Agroindustriais; Mestrado Profissionalizante em Ciência e Tecnologia de Sementes, Ciência e Tecnologia de Alimentos; e Especialização em Produção de Sementes.

Dirceu Agostinetto destacou o impacto das pesquisas desenvolvidas pelos cientistas da Faem. (Foto: Raquel Bierhals)

“Além de sua elevada contribuição para a formação de profissionais, na área de ciências agrárias, destaca-se na pesquisa, gerando importantes informações que vão desde o melhoramento genético, manejo e conservação do solo, manejo de culturas agrícolas, proteção de cultivos, pós-colheita e industrialização de produtos de origem vegetal e animal, além de pesquisas nas áreas de engenharia rural e zootecnia”, garantiu. Agostinetto destaca ainda que a Faem possui 42 grupos de pesquisa, totalizando 152 projetos de pesquisa em desenvolvimento nas mais diferentes áreas do conhecimento da Agronomia e Zootecnia.

“Também temos muitos fatos históricos como a primeira engenheira agrônoma do Brasil que é formada aqui, em 1914”, apontou.

A inscrição do primeiro aluno ocorreu em 1891 e em 1895, a colação de grau da primeira turma de engenheiros agrônomos. A primeira revista de agricultura científica, a Revista Agrícola do Rio Grande do Sul, com tiragem de 400 exemplares e distribuída em 31 de janeiro de 1898 foi criada em 1897, por professores do Lyceu.

Faem é a mais antiga instituição de ensino superior de Pelotas e já formou 6,1 mil agrônomos. (Foto: Divulgação)

A fundação da Associação Rural de Pelotas (ARP) e a realização da primeira exposição pecuária do Estado (1899) tiveram origem na instituição. Em 12 de outubro de 1898, grupo de professores da Escola de Agronomia e Veterinária, funda a Sociedade Agrícola Pastoril do Rio Grande do Sul, que em 1922, passa a ser Sociedade Agrícola de Pelotas, ocupando área de mais de 43 hectares, no bairro Três Vendas. E em 1967, passa a ser Associação Rural de Pelotas. Também realizou em 1898, o 1º Congresso Agronômico do Rio Grande do Sul.