A menina que adorava joias

Ciro José Mombach, médico. (Foto: Divulgação/Arquivo pessoal)

Desde primitivas eras, os judeus são famosos pela manufatura e pelo comércio de joias. Antuérpia e Israel são os maiores centros de comércio e lapidação de diamantes. O fato de a perseguição aos judeus e sua constante migração fez das suas joias a maneira mais fácil de carregar seu patrimônio. As maiores joalherias do Brasil e do mundo sempre têm algum judeu como sócio ou proprietário.

Não é surpresa, portanto, que seu Elias, um judeu de uma pequena cidade do interior exercesse a profissão de comerciante de joias a domicílio. Suas visitas se davam mais por intuição do que por avaliação do poder aquisitivo do visitado. Naquela família, embora não abastada, ele anteviu o desejo enorme do marido agradar sua esposa. Assim suas visitas eram frequentes.

Vinha então aquele senhor atarracado, semi calvo de meia idade, vestindo sempre um enorme e folgado casacão escuro, não importava se era inverno ou verão. O marido, muito solícito, o recebia com entusiasmo, só superado pelo brilho no olhar de sua filha de 5 anos que já conhecia o ritual. E a magia começava quando ele tirava de um bolso interior um rolinho de veludo preto que ele desdobrava na mesa de jantar. Em seguida, começavam a brotar de seus inúmeros bolsos as maravilhosas joias.

Mal começava a exposição, a menina pegava uma cadeira e nela ficava de pé pra não perder nada do espetáculo que se seguia. Eram de ouro as pulseiras tipo escrava e as laminadas, largas e pesadas, com fecho de brilhantes, assim como as delicadas correntinhas com medalhas de Nossa Senhora. A seguir vinham os anéis. Solitários de diamantes, chuveirinhos de ametista, alianças de esmeraldas e de brilhantes, com cravação em garra, que aumentava o brilho da luz do lustre transfixando as joias. Mais que tudo, brilhavam de volúpia os olhos da menina. Ela não entendia o aparente desinteresse da mãe, apesar da insistência do pai, talvez porque a mãe soubesse que a situação financeira não comportava grandes expectativas. Poucas vezes seu Elias fechava negócio para decepção da menina, mas nada o impedia de voltar com frequência para sua alegria. Que profissão sedutora a do seu Elias, que lidava com a beleza das joias e a gentileza no trato, pensava a menina.

Associava essa gentileza ao fato de ser judeu, já que sua amiguinha Raquel, do outro lado da rua, também era de família judaica. Família que a acolhia com carinho e estranhos costumes. O de rezar em uma língua desconhecida antes das refeições, com comidas diferentes. O pão às vezes era insosso, às vezes trançado e, às vezes, bolo de mel, sempre acompanhado de um copo de leite. Às vezes acendiam sete velas em um enorme candelabro e se seguiam mais estranhas rezas.

A gentileza, o carinho e o aconchego que sentia próximo dessas duas famílias judaicas forjou em sua alma uma admiração e respeito pelo povo judeu e suas lutas.

Continua até hoje, com sua alma judia, a apreciar joias. Não resiste a uma vitrine de joalheria, só para olhar, com a mesma volúpia da infância, já  que se comprar não vai conseguir usar, pelo menos neste país…