Cine Piratini é objeto de pesquisa na UFPel

Gilvan Quevedo é o responsável pela pesquisa orientada pelos professores Diego Lemos Ribeiro e Olívia Silva Nery. (Foto: Divulgação)

Quando o som da sirene ecoava pelas ruas do centro de Piratini, o povo sabia: em seguida o filme iria começar. “E eu era apaixonada por aquele toque de sirene e aquele som ficou gravado na minha memória até hoje”, contou a escrivã de polícia Nanci Picanço. Lembranças como essa e a relação da comunidade com o primeiro e único cinema da cidade, o Cine Piratini, são objeto de uma pesquisa do Programa de Pós Graduação em Memória Social e Patrimônio Cultural (PPGMP) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel).

Inaugurado em 1951 por Venâncio Alves de Oliveira, o Cine Piratini permaneceu em funcionamento por quase 40 anos e foi durante muito tempo um dos principais locais de entretenimento e convívio social da cidade. As sessões aconteciam aos fins de semana, mas quando o filme em cartaz era muito popular como, por exemplo, as produções de Teixeirinha, se realizavam sessões extras nas noites de sexta-feira. “Quando o Venâncio exibiu Coração de Luto, lembro de pedir muito para minha mãe me levar”, revelou a professora Cati Madruga Sandi.

“Essa pesquisa é um desafio e, ao mesmo tempo, uma oportunidade de mostrar que Piratini possui outros potenciais bens culturais para além dos que foram patrimonializados. Não é algo muito convencional propor essa discussão em uma cidade histórica, que se orgulha tanto de seu rico conjunto arquitetônico tombado, ligado à Guerra dos Farrapos e ao período da colonização açoriana. Contudo, o conceito atual de patrimônio cultural nos permite esse olhar também para outros bens e objetos, de um passado mais recente, que são importantes para a comunidade por serem ancoradouro de tantas lembranças e afetos, ainda que se esteja a falar de uma ruína, sem qualquer apelo arquitetônico, como é o caso do Cine Piratini”, disse o mestrando Gilvan Quevedo, responsável pela pesquisa orientada pelos professores Diego Lemos Ribeiro e Olívia Silva Nery.

Além de resgatar memórias e afetos, o trabalho pretende fomentar a discussão em torno de alternativas de preservação do prédio onde o cinema funcionou e que foi construído em mutirão por amigos e parentes de Oliveira. “Após o fechamento do cinema, o prédio no Centro Histórico da cidade recebeu várias outras atividades e abrigou inclusive uma igreja neopentecostal. Com a morte de Venâncio, em 2000, ficou abandonado e hoje se encontra em ruínas”, afirmou Quevedo.

Um complicado processo de inventário que envolve os sucessores de Oliveira e a Mitra Arquidiocesana de Pelotas, que comprou parte dos direitos hereditários da área, localizada a poucos metros da Matriz Católica Nossa Senhora da Conceição, no entanto, dificulta a tomada de iniciativas. “A nossa ideia é fazer alguma coisa ali, mas há toda uma dificuldade para o município porque é um imóvel particular e ainda há esse complicador do processo de herança”, salientou o prefeito Márcio Porto (MDB).

Inaugurado em 1951 por Venâncio Alves de Oliveira, o Cine Piratini permaneceu em funcionamento por quase 40 anos. (Foto: Divulgação)

De lanterninha à marqueteiro

Tanto quanto os filmes, os fatos pitorescos acerca de cada sessão permanecem vivos na lembrança dos frequentadores, como por exemplo o esforço de Oliveira em fazer tudo dar certo. “Ele não media esforços para fazer aquele cinema funcionar, consertava o maquinário já que era um pouco ultrapassado, quando a fita cortava no meio da exibição ele mesmo remendava e ainda dava bronca nos engraçadinhos que faziam algum griteiro. Outra coisa interessante era que a esposa e as filhas dele trabalhavam na bilheteria, todos trabalhavam pelo cinema”, contou Nanci.

Além de proprietário, projetor e marqueteiro do cinema, Oliveira era também o lanterninha, responsável por jogar luz sobre casais que, eventualmente, se distraíssem durante os filmes.

Dono de um carro de som, que era o principal veículo de comunicação da cidade, Oliveira percorria a cidade anunciando, entre outros recados e avisos fúnebres, os filmes em cartaz. Algumas vezes essa mistura de informações acabou virando motivo de boas risadas na cidade. “Certa vez, o seu Venâncio estava convidando para um enterro e, em seguida, fez o anúncio de um filme adulto. Lá pelo meio do convite ele se perdeu e, depois de dizer que a família enlutada convidava parentes e amigos para o sepultamento, disse: ‘não percam, cavalheiros, porque será um grande show de sexo explícito’. Parecia que o tal show seria no enterro, isso acabou virando piada na cidade”, divertiu-se Nanci.

“Seu Venâncio era uma pessoa simples, mas que foi capaz de deixar um legado importante para o município através de serviços prestados à comunidade e foi um dos pioneiros nesse trabalho de carro de som. Era um homem inteligente, autodidata e que realizou coisas ousadas, como colocar o cinema em funcionamento em 1951 em uma comunidade pequena e distante de grandes centros urbanos”, destacou Quevedo.