
Um grupo de mulheres, formado por voluntárias, usuárias e familiares de usuários da Associação de Apoio a Pessoas com Câncer (Aapecan) Pelotas, encontrou uma maneira de canalizar o estresse causado pelo enfrentamento à doença com agulhas, tecidos, linhas e muita criatividade. Assim nasceu o grupo de artesanato “As 5 Marias”, que há mais de 15 anos proporciona uma terapia ocupacional, cultiva a amizade e a solidariedade entre suas integrantes.
A responsável por manter este grupo motivado e atuante é a voluntária Maria Aparecida Padovam de Lima, a Cida, de 70 anos, que dedica todas as terças-feiras de sua vida a compartilhar seus conhecimentos e oferecer uma palavra de conforto, um abraço e até mesmo “um puxão de orelhas”. “É uma oficina diversificada, cada uma faz e ensina o que sabe, que pode ser crochê, tricô, costura, feltro”, ressalta. Algumas também participam de oficina de informática oferecida pela casa. Cida, como é carinhosamente conhecida pelas 20 integrantes do grupo, é uma das mais antigas voluntárias da unidade da Aapecan Pelotas. Ela chegou em 2008, encorajada a participar das oficinas por uma vizinha, que conhecia o seu gosto pelo artesanato. Hoje, coordena o trabalho, que faz muito sucesso na casa, inclusive sendo recentemente requisitado para realizar a decoração das mesas da festa de confraternização de Natal, realizada no fim do mês de novembro. Os 100 arranjos, improvisados a partir de material que sobrou de uma cesta de Dia das Mães, que teve as comemorações frustradas pelas enchentes do mês de maio, fizeram o maior sucesso entre os usuários e não sobrou nenhuma.
As peças confeccionadas pelas “Marias”, que geralmente têm como tema alguma data comemorativa, são comercializadas por elas mesmas e também na lojinha da própria casa. Todo o valor arrecadado retorna para a aquisição do material necessário para manter este trabalho sempre ativo. E os laços estabelecidos entre elas não encerram no fim do dia. As participantes organizam passeios e comemorações em suas casas e fortalecem a amizade. Uma das mais festeiras é a dona Eva Dias, de 86 anos, que foi usuária e hoje é voluntária, famosa pelos cafés que oferece em sua residência, no Passo do Salso. Em fevereiro, ela completa 87 anos e já está agendado um novo café, evento muito aguardado por todas. A sua resiliência diante da doença, que a acometeu por mais de uma vez, é exemplo para o grupo.
Ilânia da Silva, de 61 anos, também encontrou no grupo uma extensão da sua casa. Frequentadora das aulas há 17 anos, transforma em alento a dor que enfrenta ao longo dos vários tratamentos a que se submete, seja no trabalho com materiais como o feltro, porongo, EVA e pintura em tela, ou no convívio com as demais integrantes. “Elas são como uma família. Aqui me sinto em casa, onde a gente brinca, ri e diz bobagem”, garantiu. Participante como voluntária há 12 anos, Eda Maria Heidemann chegou ao grupo após o primeiro diagnóstico de mieloma múltiplo do marido Mário Heidemann, que também acompanha o grupo. Ex-feirantes, tiveram que se afastar da atividade por causa do tratamento e posterior transplante, realizados em Porto Alegre. Depois, veio o diagnóstico de câncer de próstata, hoje em remissão. O grupo devolveu ao casal morador do Sítio Floresta a interação com as pessoas que ambos tinham quando trabalhavam na feira. “Além do tratamento médico, a pessoa com câncer também precisa do apoio emocional, sair de casa, esquecer dos problemas”, disse Eda. A usuária Irene Castro relata sobre o acolhimento obtido na Aapecan após o diagnóstico de câncer. “Eu sou outra pessoa hoje, tenho força nas pernas graças às aulas de pilates oferecidas pela entidade e, no grupo, além de aprender o crochê, levantei minha autoestima”, afirmou. “São cinco anos de acompanhamento e o carinho é tudo de bom na vida da gente”, finalizou.
A Unidade Pelotas da Aapecan fica na rua Bernardo Pires, nº 350, e foi inaugurada em outubro de 2005. É a segunda com mais tempo em funcionamento e a primeira a contar com Casa de Apoio, oferecendo capacidade para 22 usuários. Desde que abriu as portas, já foram cadastradas mais de 4,7 mil famílias. Hoje, o cadastro ativo soma mais de 1 mil usuários de Pelotas e de quase todos os demais municípios da Zona Sul, como São Lourenço do Sul, Turuçu, Arroio do Padre, Canguçu, Santana da Boa Vista, Morro Redondo, Capão do Leão, Piratini, Cerrito, Pedro Osório, Arroio Grande, Herval e Jaguarão. Dispõe de atendimento social, psicológico, grupos de apoio e assessoria jurídica. Benefícios como fraldas geriátricas, kits, dietas e suplementos alimentares, entre outros, são garantidos mediante avaliação da equipe do Serviço Social.
Além da oficina de artesanato e informática, a unidade oferece ainda sessões de reiki, pilates e palestras informativas. Usuários hospedados na Casa de Apoio, além da acomodação, têm acesso a quatro refeições diárias elaboradas por nutricionista e transporte a hospitais e centros de tratamento oncológico.




