Alimento para o corpo e para a alma em Pelotas

A equipe possui cerca de 60 pessoas envolvidas, direta e indiretamente com o projeto, em diferentes frentes. (Foto: Luciara Schneid/JTR)

Tradicionalmente, no fim do ano, multiplicam-se iniciativas de voluntariado para a distribuição de alimentos e presentes, especialmente direcionada a crianças e idosos em vulnerabilidade social. Iniciativas louváveis, mas que precisam ser distribuídas ao longo de todo o ano, pois matar a fome é um problema a ser resolvido diariamente por aqueles que não têm onde ou como obter o alimento.

Durante a pandemia, surgiram as cozinhas solidárias, que proporcionaram o alimento saudável e já preparado, especialmente àqueles que vivem em situação de rua, pois não têm onde prepará-los. Durante a crise climática de maio, estas iniciativas deram um belo exemplo, fornecendo alimento à população que precisou deixar suas casas e se alojar em abrigos. Essa iniciativa teve a parceria do Armazém do Campo, a fim de demonstrar a importância das cozinhas solidárias.

E esses projetos não pararam com o fim da pandemia e da crise climática. Eles se espalharam por Pelotas e doam, além de alimentos, um dia do seu tempo para prepara-los. A sede do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Alimentação de Pelotas (Sticap) é o QG do projeto Nós por Nós, um grupo formado na maioria por servidores públicos voluntários que dedicam o sábado para preparar o jantar de pessoas em situação de rua de Pelotas.

A coordenadora do grupo, a servidora Rosangela Mendes, explicou que o Sindicato empresta a cozinha para a produção das refeições. “Este é um trabalho itinerante e muito importante, pois chega em locais que não estão tão visíveis e longe do centro”, disse. As entregas são feitas por rotas e utilizando os veículos dos próprios voluntários.

O trabalho começa cedo, já pela manhã, no corte e preparo dos alimentos. Verduras e legumes, como tomate, cebola, repolho e couve, precisam ser cortados, a carne, o feijão e o arroz precisam ser cozidos e temperados. Nesta fase, entram em cena as cozinheiras voluntárias, que preparam tudo com muito capricho e amor. Depois de tudo pronto, começa a montagem das viandas, que agregam outros voluntários na distribuição. A comida é balanceada, com arroz, feijão, uma carne (guisado ou frango), verduras e legumes como beterraba, repolho e couve. “O que dita o nosso cardápio são as ofertas da semana e são distribuídas por sábado de 150 a 170 jantas, acompanhadas de suco e, eventualmente, alguma sobremesa, como ambrosia, além de bolachas”, afirmou.

Rosangela contou que a primeira ação do grupo ocorreu em 1º de maio de 2020, com a distribuição de cestas básicas aos moradores da Estrada do Engenho. “Ano passado, a situação deles melhorou e, hoje, de 15 em 15 dias, eles recebem alimentos do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que são distribuídos entre 20 projetos, inclusive o nosso”, relatou a coordenadora.

Projeto “Nós por Nós” distribui jantares a pessoas em situação de rua em Pelotas. (Foto: Luciara Schneid/JTR)

Outros grupos atuam em diferentes locais e dias da semana a fim de evitar a oferta excessiva de comida em um dia só e falta em outros. “Em reunião com outros grupos, foi definido o dia em que cada um atuaria”, ressaltou. A equipe possui cerca de 60 pessoas envolvidas, direta e indiretamente com o projeto, em diferentes frentes. Alguns preparam alimentos em casa, como feijão e entregam no dia, outros fornecem sucos ou outros insumos, mas o grupo está sempre aberto ao voluntariado ou ainda a arrecadação de recursos financeiros para a aquisição de alimentos. Os voluntários também realizam eventos, como bingos beneficentes para a obtenção de equipamentos e utensílios. Mais informações no Instagram @projeto.nospor.nos.

Combate à fome

O PAA, operacionalizado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), vai fechando o ano com acumulado de cerca de 15 toneladas de alimentos produzidos pela Agricultura Familiar da região, que tem combatido a fome em Pelotas, através da modalidade doação simultânea. De acordo com o articulador do PAA/Pontos Populares, o assistente social Diego Gonçalves, os alimentos, principalmente hortifruti, leite e panificados, são adquiridos pelo governo federal junto às cooperativas da região. “Cumpridos todos os requisitos legais, estes alimentos são repassados para a Cáritas Arquidiocesana de Pelotas, representante legal dos chamados pontos populares de combate à fome”, garantiu.

Os pontos populares são um conjunto de organizações, projetos, cozinhas solidárias, entidades religiosas, comunitárias, que se destacaram no combate à fome, principalmente a partir da pandemia, quando os números da desnutrição já vinham em alta no país. “O programa se desenvolve no município através desta articulação, governo federal, cooperativas, Cáritas e organizações comunitárias”, explicou. Segundo Gonçalves, todas seguem os trâmites e controles legais de uma política pública.

A cada sábado, são distribuídos de 150 a 170 jantares, acompanhados de suco e, eventualmente, alguma sobremesa. (Foto: Luciara Schneid/JTR)

A primeira etapa deste trabalho cadastrou cerca de 2,3 mil famílias, que sofrem de fome e/ou insegurança alimentar. “Entendemos que ainda trabalhamos com um complemento alimentar, são frutas, hortifrutis, leite… Esperamos avançar para outros produtos, mas de toda forma podemos notar a importância de cada entrega do PAA para as organizações e para as famílias beneficiadas, bem como a importância para o produtor que tem por onde comercializar sua produção”, finalizou.