Companhia virtual

Hoje vou escrever um pouco sobre a solidão. A solidão que encarcera em uma prisão sem grades, que estrangula a voz, impede a visão, ensurdece os ouvidos, restringe o gesto. Solidão que amanhece e adormece ao teu lado; cega, surda e muda. A solidão é minha companheira de cama e mesa. Só se ausenta furtiva quando me olho no espelho ou quando escrevo um poema. Palavras que escolhi para definir a minha solidão, que é a de tantos e vários.

A sensação de estar fora de lugar, sem expectativas, sem “eira nem beira”, à mercê de um toque de mágica que suprima e afugente a hóspede indesejada é disfarçada por máscaras de “faz-de-conta que a solidão não existe”.

A vontade de conversar com alguém, o desejo de ouvir respostas às perguntas da alma, a necessidade de preencher o vazio da solidão e muitas coisas mais, motivam e justificam o enorme crescimento das redes sociais na internet. Basta um clique no “compartilhar”, “curtir” ou “comentar” um assunto, uma foto, uma notícia para interagir e mergulhar no espaço dos amigos virtuais. E a sensação é a de estar na companhia de muitos no silêncio do teclado, na visão solitária da telinha.

As palavras encadeiam as ideias e os sentimentos como se fossem aros de uma corrente invisível que propaga ecos e envolve os mistérios de cada um numa plena identificação. E uma partilha se desencadeia, confirmando que existe uma global solidão entre os mortais, atenuada pelo convívio no campo da comunicação via satélite. Sinal dos tempos.

Somos todos passageiros da mesma nave Terra com iguais e semelhantes sensações dissimuladas. A solidão não é privilégio teu. É comum a cada um em determinado momento da existência. Difícil descobrir o que possa nos imunizar contra ela.

E isso se deve ao fato de sermos indivíduos únicos e exclusivos. É a nossa própria individualidade e peculiaridade que gera a desagradável constatação da presença da solidão em nossas almas.

E se ao invés de nos incomodarmos com ela, pudéssemos aceitá-la como um mal necessário? É isso mesmo. Um mal necessário que nos assusta, mas nos aprimora. A solidão nos comprime e nos dilata, nos amassa e nos amacia. Ela é adubo porque nos faz crescer e nos torna mais sábios para o convívio com os demais. Reconhecemo-nos em idênticas sensações porque fazemos parte de um só reflexo através do vitral da vida.

Eco de um sussurro, de um gemido, de um riso, de um gesto. Eco que se propaga, na comunicação das almas, no espaço sideral em meio às constelações.

De uma forma ou de outra, buscamos driblar a solidão, arquitetando planos de fuga, criando mecanismos de sobrevivência com um estojo de primeiros socorros. Entre eles, se incluem as companhias virtuais das redes sociais.

Porém, esses compartilhamentos se processam sem comprometimento ou envolvimento maiores. E envolvimento é assunto muito sério. Assunto para a próxima crônica.