Um sábado no Forte

José Henrique Pires licenciado em Estudos Sociais pelo ICH-UFPel, especialista em Políticas Públicas pela Universidade de Salamanca, Espanha, jornalista e radialista. (Foto: Divulgação)

Eis que, em uma sexta-feira, na primeira metade dos anos 90, desembarcou em Pelotas uma significativa equipe da Revista Vogue.

Chegaram ao aeroporto com pauta bem definida: registrar, próximo da cidade, a casa da Estância do Liscano, antigo Forte de São Gonçalo, sua construção de linhas simples, do tempo do Brasil Colônia, cuja passagem dos anos a transformou em sede de uma tradicional estância gaúcha.

As fotos todas seriam – e foram – do fotógrafo/arquiteto Tuca Reinés e sua equipe. Os textos foram de Sandra Nedopetalski e da editora Gabriela Perucchi, conceituada profissional de origem suíça.

Dia seguinte, sábado, bem cedo, lá foram recebidos pela anfitriã, Gilda Martins Moreira Osório, que, fazia poucos anos, havia voltado a viver em Pelotas, depois de residir na Bahia e no Rio de Janeiro.

O Liscano, cujas portas abria, era seu berço, a casa rural de sua infância, de seus avós, seus pais, agora dela e de seu irmão Aníbal Nery.

Havia dentro um longo corredor ladrilhado em preto e branco, com cerca de 80 metros, ao longo do qual estavam dispostos móveis e que dava acesso a salas, lareiras e aos 16 quartos, esses sempre preparados para acomodar eventuais hóspedes, naquelas duas alas da construção que um dia acolheu soldados da antiga fortificação portuguesa.

Já na chegada, os visitantes puderam sentir o perfume que emanava de uma profusão de flores e rosas multicoloridas que se esparramavam a partir de incontáveis vasos, dispostos nas mesas e aparadores. Flores colhidas lá mesmo, a maioria do centenário e bem tratado roseiral da estância.

Também se depararam com aquela que deve ter sido a maior coleção de móveis coloniais em jacarandá do Rio Grande do Sul, que Gilda tratou de explicar, resultarem de sua mãe, Inês Martins Osório, que priorizou a aquisição – ao longo de anos – daquele mobiliário, em uma época em que poucos lhes davam atenção. Ela, que também fora a responsável pelas pratarias visíveis naquelas vitrines, onde se destacava uma extensa e simpática coleção de paliteiros – pequenas e artísticas esculturas de mesa – em prata portuguesa, ali, à vista de todos.

Quando circularam pela casa e conheceram a mesa de jantar, perguntaram se haveria a possibilidade de organizá-la para ser fotografada, preparada como se fosse para receber convidados em um jantar de cerimônia, em uma típica estância pelotense.

Gilda gostou da ideia e chamou a governanta, dona Natália, que rapidamente mobilizou suas auxiliares e em pouco tempo foram abrindo cômodas, armários, buscando toalhas, candelabros e tudo o mais.

Os visitantes ficaram visivelmente admirados, pois as coisas iam surgindo em uma sequência naturalmente perfeita, as toalhas de linho engomadas e impecáveis, metais surgindo rigorosamente polidos. Em seguida, a equipe da casa buscou em um armário uma bateria completa de cristais venezianos, verdes, vermelhos – todos filetados a ouro – com taças, copos e decanters, que a essa altura faziam os visitantes perceberem que, na sua frente, montava-se um cenário que bem poderia estar incluído em uma cena de mesa do Gattopardo, de Lucino Visconti.

Ainda faltavam os talheres e, incrivelmente, havia opções em prata. Gilda determinou: “vamos usar os Dom José”.

Em minutos, polidíssimos, surgiram sobre a mesa aqueles antigos e perfeitos talheres e trinchantes, acondicionados em incontáveis saquinhos de feltro verde, sacados de uma caixa em cuja tampa interna havia um certificado datilografado, com a história da origem daquelas obras de arte vindas de Lisboa, com a biografia do prateiro, que empregou 17 kg naquele conjunto.

Terminada essa parte do ensaio fotográfico, recolhidas as sombrinhas, flashes e batedores de luz, o relógio já marcava três da tarde. Ninguém havia almoçado e a produção da Vogue perguntou a Gilda se ela permitiria que o pessoal usasse a mesa da cozinha, na qual, desde cedo, haviam sido providenciadas as refeições, já naquele momento prontas, nas respectivas panelas da casa.

Gilda sorriu e disse: “nossa mesa ficou muito bonita, seria uma lástima se não a usássemos”.

Mais uma vez, impactados, viram surgir saladas, um tradicional arroz de carreteiro, feijão de estância a capricho, uma paleta de cordeiro assada, vinhos e tudo o mais, servidos nas belas travessas e em porcelanas de Limoges, que instantes antes haviam sido registrados pelas lentes do fotógrafo.

De vez em quando, dizia Gilda: “essas coisas precisam ser usadas, afinal para isso foram feitas”.

Que grande almoço!

Dias depois, Gilda foi surpreendida com a inesperada edição da revista, que a homenageou, destinando uma página inteira para a sua foto, junto ao portal de granito do velho páteo das rosas. Assim lembro de Gilda, naturalmente sofisticada, distante de deslumbramentos, acostumada desde sempre a receber quem quer que fosse com um refinamento singular, próprio de quem vivenciara uma trajetória que incluía grandes viagens internacionais ao lado do pai, que em dado momento da década de 50 chegou a ser titular de 48% das ações da Varig.

Tive a alegria de participar de algumas situações que renderiam relatos parecidos, no Liscano, também na bela Estância do Passo das Pedras, na simpática casa na rua Gonçalves Chaves, e no apartamento do Edifício Santo Antônio, este último onde ela enfrentou os problemas de saúde que a afastaram das atividades das quais tanto gostava.

Gilda recentemente partiu e teve a benção de estar cercada do amor dos filhos, netos, noras, genros, familiares que carinhosamente a cuidaram tanto.

Guardarei boas histórias e lembranças dessa querida amiga.

Que descanse em paz!