Quando a dor da tragédia bate a nossa porta

Elis Radmann, cientista social e socióloga.

Toda tragédia é um evento que causa muito sofrimento, muita aflição, principalmente os acidentes rodoviários. É algo abrupto, inesperado, que resulta em perdas significativas e impacto emo­cional profundo. Assistimos diariamente ao noticiário, que sempre relata mortes no trânsito, mas alguns casos são mais simbólicos. Acidentes com muitas vítimas têm um impacto profundo e como­vente na sociedade por várias razões. Primeiro por destacarem a fragilidade da vida, lembrando-nos de como tudo pode mudar em um instante. Segundo, a dor da perda que as famílias e amigos das vítimas sentem são intensas e se espalham para toda a comunidade, criando uma percepção de luto coletivo.

O time do Instituto Pesquisas de Opinião (IPO) vive um momen­to de luto pela tragédia que ocorreu com a van em que viajavam os membros do Projeto Remar para o Futuro, de Pelotas, que há quase uma década vem revelando talentos do remo para todo o Brasil. Jovens integrantes do projeto, com idades entre 15 a 20 anos, haviam participado de competição nacional em São Paulo, onde conquistaram sete medalhas. O projeto, que tanto orgulha os pelotenses, é uma união de esforços entre a Escola Superior de Educação Física (Esef-UFPel), Prefeitura de Pelotas e Centro Português 1° de Dezembro. Além de sete atletas, o acidente tam­bém tirou a vida de um dos idealizadores e técnico do Remar para o Futuro, Oguener Tissot.

Essa tragédia também marca a história do IPO, que perdeu um parceiro de longa jornada, o motorista Ricardo Leal da Cunha, da empresa Gaúcho Transporte.

Quantas e quantas vezes relatei aqui o comportamento, os anseios ou as expectativas da população. Cada resultado de uma pesquisa de opinião tinha uma viagem por trás. Nossos entrevis­tadores eram conduzidos em segurança pelo Ricardo, que era responsável pela logística de viagens do IPO e, em muitos casos, estava à frente da direção.

Foi extremamente corajoso e dedicado quando cuidou pes­soalmente da logística de transporte da pesquisa EPICOVID da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) no RS, que o IPO coorde­nou a execução. A pesquisa era urgente e o Ricardo entendeu a necessidade. Não tinha ruim, seguiu os protocolos e foi um guerreiro.

Ricardo era quase um membro do IPO, um fornecedor que nos guiava nos diversos recantos do Estado. Era excepcional, como pessoa e como profissional. Além de levar os entrevistadores para cá e para lá em segurança, era um amigo, um pai para muitos. Se alguém tinha um mal estar, era ele que levava até um atendimento médico. Se havia um ruído entre a equipe, era um apaziguador. Esse era o Ricardo, que deixa a esposa e dois filhos.

Nesse momento de dor imensurável, nossas palavras jamais serão suficientes para amenizar a tristeza que as famílias estão enfrentando. Esperamos que possam encontrar consolo na lem­brança dos momentos felizes e no impacto positivo que essas vidas preciosas tiveram na nossa comunidade. Nossa solidariedade e sentimento de pesar está com vocês.