Uma rosa nasceu

José Henrique Pires licenciado em Estudos Sociais pelo ICH-UFPel, especialista em Políticas Públicas pela Universidade de Salamanca, Espanha, jornalista e radialista. (Foto: Divulgação)

Meu pai andava pela Itália e foi às colinas toscanas visitar meu irmão que morava em uma comunidade católica, em Loppiano.

Naqueles tempos pré-celular, ele avisou que iria e acabou che­gando mais cedo do que o previsto. Ficou aguardando em uma capela até que localizassem o Álvaro e informassem que ele já estava lá.

Maravilhado com as pinturas daquele pequeno templo, com santos e figuras religiosas de grande qualidade, distraiu-se em meio à contemplação e orações, sem perceber o tempo fluir.

Eis que chega uma senhora, que percebe o encantamento dele com aquele conjunto de afrescos e se apresenta. O pai aproveita para perguntar: “Quem é esse artista talentoso que fez essas pin­turas modernas e tão impactantes? É algum jovem aqui da região de Florença?”

Para surpresa dele, ela responde: “São todas obras de uma jovem focolarina brasileira, que planejou e executou todas as pinturas da nossa Capela. Seu nome é Carolina Osório”.

Quando voltou para Pelotas, ele orgulhosamente contava para todo mundo o quanto havia ficado maravilhado com o talento da filha do seu amigo Joaquim, contemporâneo de sua juventude quando estudava no Colégio Gonzaga.

Colega de minhas irmãs no Colégio São José, estudante aplicada na Faculdade de Veterinária, Carolina sempre foi a personificação da simplicidade, da gentileza, da educação e da eficiência. Artista – como outros de sua família – tinha facilidade ao tocar violão e a cantar clássicos do cancioneiro gaúcho, assim como não tinha dificuldade alguma em desenhar e pintar belas paisagens e cenas bíblicas, com a qualidade e a serenidade que só os talentosos conseguem ter.

Quando foi preciso retornar ao Brasil para trabalhar no campo, percorreu potreiros e lavouras em Pelotas, Uruguaiana e Quaraí com a mesma disposição de sempre, aceitando ainda o desafio de presidir a mais que centenária Associação Rural de Pelotas, revelando aos que não a conheciam seus talentos múltiplos e suas aptidões.

Muito disciplinada, conseguia ao mesmo tempo cuidar das terras e lavouras da família junto ao Cerro do Jarau.

Tive a alegria de estar com ela algumas vezes nesses últimos tempos. Mas hoje, considero poucas vezes, ante a rapidez com a qual ela se foi.

Sabia de sua luta contra uma doença insidiosa, mas tamanha sua garra, disposição e força não me permitiram perceber que o estágio das coisas fosse tão grave.

Consola os amigos saber que, ao lado dos demais familiares, pode acompanhar os últimos tempos de sua querida mãe Marta, também ausência recente.

Qualquer dia farei a tantas vezes adiada visita ao Cerro do Jarau, onde está a gruta fantástica da Salamanca, casa da princesa moura imortalizada por João Simões Lopes Neto.

Lá, certamente, lembrarei muito de Carolina, a quem Deus, por estar precisando de reforços, chamou para junto de si, na semana passada.

*José Henrique Medeiros Pires é Licenciado em Estudos Sociais pelo ICH UFPel, Especialista em Políticas Públicas pela Universidade de Salamanca, Espanha e jornalista e radialista