Linguiças e queijos

José Henrique Pires licenciado em Estudos Sociais pelo ICH-UFPel, especialista em Políticas Públicas pela Universidade de Salamanca, Espanha, jornalista e radialista. (Foto: Divulgação)

Certa ocasião, em Porto Alegre, ganhei uma linguiça – das mais temperadas – enviada do Alegrete, onde são feitas algumas das mais famosas do Rio Grande do Sul.

Como viajaria no fim daquela tarde para Pelotas, avisei lá que não se preocupassem, que levaria meu presente e fritaríamos na chegada. Estava resolvida a janta.

Era uma sexta-feira tranquila, que por alguma razão foi ficando movimentada – coisas surgindo daqui e dali, e o horário do embarque chegando, em meio aquele corre-corre imprevisto.

Quando dei por mim, já estava dentro do ônibus, passando a velha ponte do Guaíba. Só ali percebi que a minha janta tinha ficado na geladeira. Nem tive tempo de pensar um plano B. Bastou o ônibus sair da ponte para sermos parados pela Polícia Rodoviária Federal, com duas viaturas, agentes fortemente armados e cães farejadores, que rapidamente cercaram o veículo e ordenaram a abertura do compartimento de bagagens. Da janela, de onde assisti, dei graças a Deus. Tivesse levado aquela linguiça na mala, correria o risco de passar pela mesma situação que anos antes ocorreu envolvendo um técnico do Patrimônio Histórico Nacional.

Ele trabalhava em Brasília e foi a Minas avaliar o modo de fazer queijos tradicionais, para tombamento imaterial nacional. As queijarias enviaram seus mais famosos produtos, com laudos, para análise. Terminado o serviço, os queijos foram acondicionados numa bolsa de lona para serem levados a Brasília, no porta-malas do automóvel que o conduzia. Saem ele e motorista de Minas, entram em Goiás a noitinha e logo adiante são parados numa grande blitz.

Assim como no ônibus que me levava a Pelotas, lá também procuravam traficantes de entorpecentes, com o auxílio de cães farejadores. Naquela época, operação policial que se prezasse tinha acompanhamento de cinegrafistas e repórteres.

Nem bem o carro parou, um par de cães treinados começou a latir insistentemente para o porta-malas. O chefe policial da operação, com toda a calma e o preparo de quem vai lavrar um flagrante diante das câmeras, abre teatralmente a tampa – os cães latindo cada vez mais para a bolsa de lona – que é aberta sob as luzes das equipes de TV e revela o conteúdo: queijos…

E agora?

Nada de maconha, nada de cocaína, nada de anfetaminas. Apenas uma coleção de queijos curados, temperados, fortes.

Os repórteres prontos para ir para suas redações para editar o fiasco. Porém, o delegado era experiente e perguntou: De onde vêm esses queijos? De Minas, disse o motorista.

“Então essa carga está apreendida. Produtos caseiros de origem animal não podem circular de um estado para outro. Essa carga será destruída! Os senhores podem seguir viagem”. O policial pegou a bolsa e a levou, sem olhar para traz. Se as normas sanitárias diziam isso, ninguém conferiu.

Lembrei na mesma hora dessa passagem, ao não ouvir os cachorros felizes latindo para a minha mala, como na canção do Roberto Carlos.

A linguiça? Comemos num almoço na semana seguinte. Realmente ótima, mas, de fato, não era uma coisinha leve que se pudesse comer a noite depois de completar uma certa idade. Bendito esquecimento!

*José Henrique Medeiros Pires é Licenciado em Estudos Sociais pelo ICH UFPel, Especialista em Políticas Públicas pela Universidade de Salamanca, Espanha e jornalista e radialista