O dia em que choveu

José Henrique Pires licenciado em Estudos Sociais pelo ICH-UFPel, especialista em Políticas Públicas pela Universidade de Salamanca, Espanha, jornalista e radialista. (Foto: Divulgação)

Ele estava hospedado no Hotel Manta e avisei: vou te levar num ótimo restaurante, de onde podes ir e vir a pé, aqui pela Rua General Netto.

Foi nessa noite que ouvi dele, depois daquele primeiro jantar no Clube Comercial, a frase que me marcou: “parece mentira, nesse bar, esse cara toca e canta do jeito que se tocava no Rio de Janeiro, no começo da Bossa Nova. Encontrei aqui um pedaço do Rio que lá não existe mais!”. Soube depois, ele voltou outras vezes, pra tomar chope e matar a saudade do velho Rio, ouvindo nosso craque, Solon Silva.

Naquela época, o Sesc mantinha um programa Nacional de incentivo ao cinema e realizava Ciclos com o Realizador. Pelotas estava no roteiro e – de vez em quando – apareciam cineastas que mostravam seus filmes no Teatro do Círculo Operário Pelotense e depois os discutiam com o público, falando sobre questões técnicas da obra e coisas como as dificuldades de viver só de cinema no Brasil. Era uma programação ótima, havia inscrições prévias, certificavam, mas o melhor de tudo era mesmo discutir a obra e as técnicas com o autor.

Naquela época, Pedro Camargo, nosso cineasta/professor também editava a Revista Ano Zero, publicação nacional que vendia bastante.

Aluno atento, fiquei surpreso ao saber que ele também lecionava cinema na Universidade Federal Fluminense e perguntei qual a formação necessária para lecionar nesse curso, que eu nem sabia existir: ele me disse que foi reconhecido como detentor de notório saber, por filmes nos quais havia trabalhado, mas principalmente por ter feito trilhas sonoras e músicas lá no início da Bossa Nova. Perguntei-lhe o nome de alguma e calmamente ele me disse: “creio que não conheças, ninguém lembra mais das minhas músicas, não tocam mais em lugar nenhum. Uma que tocou bastante chama-se Chuva. Mas não toca mais!”

Naquela noite, o grupo que acompanhava a programação combinou de irmos a uma pizzaria depois da aula, e por isso eu tinha ido com o carro do pai, um Del Rey com um bom toca-fitas, que eu aproveitava para rodar as minhas preferidas quando dirigia.

Ele e a Mara Braga embarcaram comigo. A Valéria Fetter Lages foi na sua inseparável bicicleta e o pessoal do Sesc, noutros carros.

Dei a partida e liguei o som, com a fita que eu havia escolhido naquele dia. Quando toca a primeira música, era a Sarah Vaughan soltando a voz: “Rain you gentle rain”. Ele quase não acreditou. Era a Chuva, a música dele, na bela versão em inglês, cantada por uma das maiores cantoras do mundo.

Correram as lágrimas.

Ficamos amigos, de vez em quando me mandava uma revista e sempre dizia: “eu precisava ter ido a Pelotas pra me reencontrar lá”!

*José Henrique Medeiros Pires é Licenciado em Estudos Sociais pelo ICH UFPel, Especialista em Políticas Públicas pela Universidade de Salamanca, Espanha e jornalista e radialista