
Ela era estudiosa, muito trabalhadora, respeitada pelos vizinhos, que a conheciam também pela maneira cuidadosa com a qual tratava o avô idoso.
Mas não era pessoa de sorrisos largos, conversas nos muros, abraços intensos. Nisso, ela diferia da vizinhança, pois era reservada, comedida, discreta.
Mas todos sabiam – uns contaram para os outros – que ela tinha uma estranha mania, o seu peculiar café preto. Ou melhor… A sua maneira peculiar de tomar uma xícara de café com água – nunca café com leite – sempre à noite.
Pensando bem, nem era um café diferente daquele que todos tomavam em casa. Era o ritual que atraia atenções.
Acontecia assim: ela servia meia taça com um café recém passado, muito quente. Completava a infusão com uma água fervente, e as pessoas que viam ficavam impressionadas. Fumegava a enorme xícara.
Não percebiam que ela evitava o café com temperatura escaldante. Ela gostava de passar calmamente a manteiga no pão, colocar um pouco de geleia numas bolachas e pensar na vida enquanto aquele perfume maravilhoso de café novinho tomava conta do ambiente e o conteúdo servido ia resfriando.
Quando concluía aquele ritual preparatório, o café estava moderadamente quente e era tomado de maneira rápida, em meio a pães e bolachas.
E sempre que alguém aparecia à noite para conversar com seu avô, davam um jeito de passar por ela e dizer mais ou menos assim:
“Bah! Mas que café bem quente! Vais acabar morrendo!”
Eles já sabiam o que ela invariavelmente diria:
“Ah, tá! Me deixa!”
E os mirava nos olhos inconvenientes, que sempre saíam de perto. Era uma provocação boba, mas curtida naquela quadra da cidade.
Um dia, o avô levou um visitante na porta, esqueceu de fechar e bem na hora que ficou pronto o café daquela moça entrou um ladrão com uma faca na mão.
Chegou ao lado da mesa, anunciou que era um assalto e ela disse:
“Ah, tá! Me deixa!”. E encarou o assaltante, que ao contrário dos visitantes abelhudos, não baixou os olhos nem caiu fora.
Ela não teve dúvida: pegou a xícara e arremessou aquele café quentíssimo no rosto do ladrão, que deu um grito, levou as mãos à cara e saiu da casa aos pontapés e bofetões desferidos por aquela moça que apreciava café quente.
A vizinhança correu, prenderam o homem, veio a polícia e o levou. Era um perigoso foragido do sistema penal que entrou na primeira casa que encontrou aberta.
Desde então, nunca mais alguém se atreveu a fazer qualquer referência ao café daquela moça.
Afinal – perceberam todos os provocadores – correram sérios riscos, estiveram à beira de um ataque de fúria, daquela moça séria, comedida e discreta, que apreciava seu café bem quente.



