Em Arroio Grande, direção surge como necessidade de independência

Berenice Feijó Gonçalves, de 47 anos, tirou a primeira habilitação em 2010, e já atuou como motorista de transporte escolar. (Foto: Arquivo Pessoal)

O aumento de mulheres em profissões antes dominadas por homens é um avanço representativo na sociedade. Foi-se o tempo em que a direção profissional era um ambiente dominado por homens, já que a mulher tem ganhado protagonismo também nas estradas. Em Arroio Grande, Berenice Feijó Gonçalves, de 47 anos, teve a experiência de encarar a direção como profissão.

Moradora da localidade do Passo do Palmito, interior do município, Berenice aprendeu a dirigir aos 16 anos, muito pela necessidade de não depender do marido para se locomover pelos 26 km que separam a localidade onde mora até a região central da cidade. “Meu marido trabalha para fora e não gosta muito de sair, por isso procurei me habilitar, primeiramente para conduzir carro e moto, e de certa forma conquistar minha independência”, conta, ao relembrar o ano de 2010, quando tirou sua primeira habilitação.

E a transformação da atividade em profissão surgiu quando a família resolveu montar uma empresa para prestar serviço para Granja Arroio Grande, com a realização do transporte interno dos funcionários da sede até às lavouras. O trajeto até então era realizado somente pelo esposo de Berenice. Com a demanda de serviço, foram adquiridos alguns ônibus e a família começou a trabalhar por conta própria, momento em que ganharam a licitação da Prefeitura e passaram a fazer o transporte dos alunos da Escola Municipal de Educação Fundamental Visconde de Mauá, localizada dentro da Granja Arroio Grande.

Diante do aumento das linhas de transporte, Berenice viu a necessidade de ajudar o esposo. O primeiro passo foi se capacitar, oportunidade em que realizou o curso para Condutor do Transporte Escolar, sendo a única mulher da sua turma. Após a capacitação, começou o trabalho com uma rotina intensa, já que na época chegou a percorrer entre 120 a 140 Km por dia, cerca de 4 horas.

Ao relembrar os desafios, Berenice destaca a dificuldade que é dirigir nas estradas do interior, principalmente em períodos chuvosos, ainda mais tendo que conduzir um ônibus com capacidade para 54 passageiros. “Tem que ter um pouco de noção e experiência para andar na região em dias chuvosos. Eu já cheguei a dirigir com água batendo no degrau da escada do ônibus”, afirma a motorista ao relembrar o trajeto que fez durante dois anos e meio.

A responsabilidade e o profissionalismo fez com que ela conquistasse a confiança dos pais dos alunos que transportava, estabelecendo uma boa relação que guarda na memória. Com relação ao preconceito por ser mulher e atuar como motorista, Berenice declara que nunca o sofreu de maneira explícita, no entanto em um ambiente de trabalho dominado por homens motoristas de caminhões e máquinas pesadas, sentia que constantemente era observada, principalmente nos momentos em que precisava manobrar.

“Em relação a isso eu acho que precisamos mostrar nossa capacidade executando o trabalho da maneira mais profissional possível, não dando atenção para comentários ou olhares preconceituosos”, declara. Atualmente a empresa da família não atua mais no transporte escolar, mas segue prestando o serviço no translado dos funcionários da Granja Arroio Grande. Mesmo assim, no período em que atuou, Berenice guarda o carinho dos alunos e as boas experiências da profissão.