
Todos os dias, com chuva ou sol, milhares de motoristas em todo o país, e fora dele, percorrem suas rotas, muitas vezes sem hora para voltar. Grande parte desses profissionais trabalha com serviços essenciais, levando alimento e água aonde isso muitas vezes não chegaria. Alguns lidam com os extremos, o excesso ou a falta, como é o caso de Odilon Mohnsan Martin, de 53 anos, motorista do Serviço Autônomo de Saneamento de Pelotas (Sanep) há 21 anos.
Há mais de duas décadas ele abastece a colônia e presta auxílio à cidade, mas um dos momentos mais marcantes de sua profissão foi desbravando o território além do município. “Um dos fatos que eu tenho mais gravado na cabeça foi na enchente de março de 2011, onde a cidade de São Lourenço do Sul ficou isolada, sem ter passagem pela BR 116, e a estação de tratamento de água deles foi toda inundada. Eles solicitaram auxílio da Defesa Civil e a gente foi para dar um apoio para eles, para levar água, só que pela 116 a gente não conseguia passar, então teve que fazer a volta passando por Canguçu”, conta.
Martin recorda que a viagem que normalmente levava uma hora se estendeu para mais de quatro. “A maior parte do caminho a gente ia com uma patrola na frente, andava um pedaço, atolava, a patrola engatava no caminhão e puxava. A gente largava em um ponto, pegava um carro do outro lado ou um caminhão, trazíamos e fazíamos o baldeio novamente”, explica.
O objetivo da complicada viagem era levar água para abastecer a Santa Casa do município vizinho. “Depois de abastecer já era mais de uma hora da manhã e eu fiquei aguardando um outro caminhão de um rapaz que era leiteiro e transportava leite e ia com outro caminhão para nos auxiliar, só que o caminhão dele não tinha bomba para descarregar água e a gente ficou aguardando ele até amanhecer o dia praticamente”, relembra o motorista.
Após cerca de 12 horas de trabalho, Martin pôde finalmente retornar para Pelotas, em mais uma longa viagem nas estradas afetadas pela chuva. “Pro lado que o vento levava a gente ia, surfando no barro, é um fato assim que fica gravado na memória, a gente tem a sorte hoje de ter muitos locais que a gente bota água que são estradas boas, pega pouco barro, mas há uns anos atrás a situação aqui era bem precária”, recorda.
Todo o esforço, as horas sem dormir e comer hoje são vistas pelo motorista com orgulho e gratidão. “Eu fiquei muito grato de poder ter ido e ter ajudado um hospital. Imagina um hospital parando por não ter água? Não tinha como chegar água do outro lado, o deles os arroios tomaram conta do tratamento de água, não teria como abastecer. É uma coisa que a gente se enche de orgulho por ter feito e por ter ajudado o pessoal. É um ato humanitário, são coisas que ficam gravadas na mente, porque assim mesmo aqui na colônia a gente chega nas casas assim, tu olha as pessoas segurando um restinho de água até chegar o caminhão…quando tu enche uma caixa de água e vê a cara de felicidade das pessoas não tem preço”, garante.



