Pelotas: Paróquia São Cristóvão realiza a 38ª procissão do Dia do Motorista

Realizada há 38 anos, expectativa é que a edição deste ano da festa reúna de 800 a mil veículos. (Foto: Adilson Cruz/Arquivo-JTR)

O Dia do Motorista é tradição em Pelotas. E todo 25 de julho, ou no domingo mais próximo à data que celebra também o Dia de São Cristóvão, santo padroeiro dos motoristas, a paróquia dedicada ao Santo põe essa tradição na rua. Neste ano será neste domingo (23), a partir das 8h30, quando o caminhão com a imagem do Santo puxa uma extensa fila de carros, motos, ônibus, vans e caminhões para a procissão motorizada que percorre ruas, avenidas, trecho da BR 116 e retorna pela avenida Fernando Osório até a rua Lindolfo Collor, 80, sede da igreja, em torno de uma hora e 20 minutos depois da partida para a aguardada bênção do pároco Jaime Souto.

A festa que começou há 38 anos, juntamente com a própria paróquia, é aberta a condutores de todas as confissões, sem distinção. “Muitos participantes são luteranos”, admite o padre Jaime. “E não tem o menor problema, todos são bem-vindos, sem restrição.” São aguardados entre 800 a mil veículos, dentre eles dezenas de carros antigos cuja confraria já comunicou a participação.

Em quase quatro décadas, a procissão e o almoço de confraternização no salão paroquial só não foram realizados uma vez – em 2020, durante a fase mais aguda da pandemia. Foi também o ano em que não teve o churrasco que costumava reunir quase mil pessoas aos sábados à tarde nas dependências do Sest/Senat, o que deve ser retomado a partir do ano que vem, acredita o coordenador da Festa, Luiz Rubino Gallas – na função há sete anos. “O pessoal está com saudade, temos muitos apoiadores dispostos a retomar [o evento]”, afirma ele.

O pároco da igreja São Cristóvão, padre Jaime Souto, de branco, no centro da foto, com as festeiras à direita, o coordenador da 38ª Festa de São Cristóvão e Dia do Motorista, Luiz Rubino Gallas, à esquerda, a coordenadora paroquial, Elenice Gallas, e Armando Jaeckel, da pastoral de Comunicação. (Foto: Roberto Ribeiro/JTR)

O que nunca faltou em todos esses anos, diz Gallas, foi a missa de ação de graças. Nem em 2020, no auge da crise sanitária: foi celebrada a um número reduzido de pessoas, atendendo as restrições vigentes na época.

Já este ano a programação é bem intensa. A procissão deste domingo tem início com a concentração dos veículos na rua Lindolfo Collor, avenida Fernando Osório e nas vias adjacentes. O trajeto prevê a rua Marcílio Dias em direção à avenida Bento Gonçalves; segue pelo prolongamento, dobra na avenida Duque de Caxias, alcança a Cidade de Lisboa, entra na BR 116, quando o contingente da Polícia Rodoviária Federal (PRF) assume a frente do cortejo, depois avenida Fernando Osório e de volta à rua Lindolfo Collor para a bênção em frente à igreja.

Mas se a procissão é o ápice, a Festa de São Cristóvão e do Motorista preparada pela paróquia começa bem antes. Mês passado, dia 17, teve lançamento com jantar dançante; na quinta (20), na igreja, houve o primeiro tríduo em honra ao santo padroeiro, que teve ciclistas como convidados especiais; nesta sexta (21), às 19h, a segunda noite do tríduo, agora a motociclistas; a terceira noite está agendada para as 18h de sábado (22), desta vez para motoristas profissionais.

O domingo também promete prato cheio de atividades. Além da procissão, está marcado o almoço de confraternização a partir das 12h30 para 350 pessoas no salão paroquial. No cardápio, galeto, massa e salada de maionese. Não serão vendidas viandas. Ingressos a R$ 40 na secretaria da igreja – rua Lindolfo Collor, 70, das 8h30 às 11h30 e das 14h às 18h. Reservas pelo telefone (53) 3229-4421.

Já a missa festiva, às 19h, será celebrada pelo arcebispo dom Jacinto Bergmann. Na ocasião, ele vai sacramentar a crisma de mais de 30 jovens e adultos.

Festeiras

Reconhecida como “paróquia festeira”, a igreja de São Cristóvão não poderia fugir à fama justamente em seu maior evento. Esta 38ª Festa de São Cristóvão e do Motorista terá como festeiras Anna Helena de Souza Mello, Luciana de Souza Ribeiro do Valle e Myriam de Souza Anselmo. Caberá a elas a decoração de toda a igreja, desde a ampla escadaria de acesso ao templo bem como do caminhão com a imagem do Santo.

Também é da responsabilidade do trio a distribuição na reta final da procissão, pouco antes da bênção do padre Júlio, de lembrancinhas como santinhos e terços aos participantes, além da venda de ingressos e doações para o almoço.

São Cristóvão, tradição

“Muitas pessoas acham que abençoamos os veículos – acham que São Cristóvão é padroeiro dos veículos, mas o padroeiro dos veículos é São Felipe, São Cristóvão é dos motoristas”, esclarece padre Jaime.

Conforme ele, a tradição que perpassa séculos é a de que o Santo teria carregado uma criança para atravessar um rio de forte correnteza. Na margem oposta, ao descê-la dos ombros, a criança teria se revelado o Menino Jesus. “Esta é a tradição”, explica o pároco. “Ficou como aquele que conduziu, e como quem conduz é o motorista, se tornou o padroeiro dos motoristas”, explica.

É válido destacar que agentes de trânsito participam da organização da procissão no perímetro urbano, enquanto no trecho da BR, a incumbência é da PRF – o que inclui, também na rodovia, ações de fiscalização. Embora uma festa religiosa, o participante não está isento de multa em caso de infração. A advertência é de Gallas: “[Fazer] zigue-zague, levar crianças de colo nos bancos dianteiros, não uso do cinto de segurança, toda e qualquer infração flagrada pelas autoridades de trânsito estará sujeita a multa”, informa.

Tanto o pároco como o coordenador da Festa lembram que o evento é uma manifestação religiosa, não política. Principalmente o coordenador: “Não podemos impedir, não vamos nem temos como coibir, mas preferimos que não se faça. Também pedimos às pessoas que não parem a procissão para entregar material de propaganda. Sabemos que a rua é pública, mas é uma procissão de quase mil veículos, precisa ter fluxo”.

Pároco Jaime Souto e o coordenador da 38ª Festa de São Cristóvão e Dia do Motorista, Luiz Rubino Gallas destacam que o evento é aberto a condutores de todas as confissões. (Foto: Roberto Ribeiro/JTR)

Projeto São Lázaro

A arrecadação do almoço de domingo no Salão Paroquial será destinada quase que integralmente ao projeto São Lázaro, hoje a mais importante ação social da paróquia. Consiste na distribuição de alimentos à população de rua em diversos pontos da zona urbana nas noites de segunda-feira, de fevereiro a dezembro. Em janeiro a atividade é interrompida em função da diminuição desta população, que se dirige para os balneários, onde encontra formas de sobrevivência com mais facilidade nessa época do ano. Nesta segunda (24), a ideia é oferecer aos assistidos o mesmo cardápio servido no almoço deste domingo no salão paroquial.

O projeto começou em 2020, a partir da coordenadora paroquial, Elenice Nunes Gallas, que fez menção à profunda queda de oportunidades de trabalho entre profissionais de limpeza. Começou-se então a distribuir ranchos à categoria. A inclusão da população de rua foi um processo rápido e natural.

“Nos lembramos que outros grupos que historicamente apoiam esta população também encontraram dificuldades e tiveram que parar”, conta o padre. Numa articulação com egressos da Casa do Amor Exigente (Caex), ex-moradores de rua recuperados da dependência química, se definiu a segunda-feira como o dia para confeccionar os pratos e distribuir as marmitas. Com o aumento exponencial desta população, o projeto se consolidou.

“Temos doadores de alimentos, grupo de senhoras que à tarde os preparam. Um outro grupo, à noite, conclui o preparo, serve e sai em três veículos para distribuir as marmitas em um trajeto que procura alcançar toda a periferia da zona urbana”, conta ele. Dia 3 deste mês, dois dias antes da entrevist0a, haviam sido entregues 183. “A festa de São Cristóvão encampou o projeto como ação concreta de caridade”, orgulha-se. Além de alimentos, grupo de párocos distribui cobertores e roupas durante o inverno.

Sustância

O cardápio varia. Arroz e feijão “reforçado” é acompanhado por massa com carne ou arroz com galinha. Carne de porco com abóbora é outra opção. Pão e sucos também são servidos.

Manter o projeto depende sobretudo de solidariedade. “Tudo é doação, a gente compra o que falta e paga insumos como gás e energia elétrica”, diz. Interessados em contribuir com doações devem se dirigir à secretaria da paróquia, em horário comercial, de segunda a sexta-feira.

O padre observa também que o início do projeto na igreja tem relação com o Grupo São Lázaro, ao qual fez parte. Vale o registro: este grupo, há 25 anos, serve janta à população de rua na esquina da agência central dos Correios todas as segundas-feiras. “Nossa relação é próxima, não é raro nos ajudarmos”, afirma.

Além do projeto São Lázaro, a paróquia presta auxílio a hospitais, como Espírita e São Francisco, casas de acolhida mantidas pela prefeitura a jovens e adultos com necessidades especiais, à Caex e à Fazenda Santa Fé, ambas com atuação na área da recuperação de dependentes químicos. Às segundas-feiras, das 14h às 17h, a igreja abre um brechó, que excepcionalmente estará aberto neste domingo.