
Há pouco mais de sete dias, boa parte do Rio Grande do Sul despertava em uma quinta-feira marcada por um cenário devastador. A passagem de um ciclone extratropical na madrugada do dia 13 deixou rastros de destruição em diversas regiões. Pessoas ficaram sem energia elétrica e água. Além disso, algumas tiveram danos nas casas e cinco perderam a vida.
Uma semana após o ocorrido, municípios ainda veem um grande desafio na restauração do que foi perdido. Pelotas, Rio Grande e São Lourenço do Sul chegaram a decretar situação de emergência diante dos prejuízos.
O coordenador Regional de Proteção e Defesa Civil, Márcio Facin, ressaltou que a articulação entre os municípios foi fundamental para o enfrentamento à situação. “Dentro da resposta que foi dada, as defesas civis dos municípios realmente foram bastante ágeis, deram uma resposta, um apoio aos seus munícipes de forma ágil e eficiente, e ainda estão com essa resposta”, garante. Ele enfatiza que ainda que o fenômeno não seja novidade para o estado, a proporção que o ciclone tomou foi o principal desafio.
“Foi um evento adverso de uma extensão bastante diferente das outras que nós tínhamos observado. A intensidade foi muito significativa, é uma intensidade que já tinha ocorrido, mas em uma extensão como foi, trazendo consequências para grande parte do estado do Rio Grande do Sul como um todo, realmente para nós foi a novidade que nos trouxe maior dificuldade para o restabelecimento”, indica.
Facin aponta que, dentre os municípios que tiveram maiores danos, destacam-se Rio Grande, Pelotas e São José do Norte, além de Canguçu, São Lourenço do Sul, Arambaré e Capão do Leão, estes em menor grau.
A Defesa Civil de Rio Grande contabilizou mais de 12 mil atendimentos por conta do fenômeno. Destes, grande parte envolveu serviços de emergência, resgate, assistência médica e entrega de lonas, além da remoção de árvores. Cerca de 250 espécies de grande porte acabaram derrubadas pela força dos ventos. Um morador do bairro Maria dos Anjos chegou a ser vítima fatal do ocorrido, após uma árvore cair em sua residência. Os ventos fortes também deixaram 30 residências completamente destruídas, 20 pessoas acabaram desabrigadas.
Uma mulher e duas crianças foram vítimas indiretas do ciclone quando a casa em que estavam pegou fogo em um acidente com uma vela acesa por conta da falta de energia elétrica.
Com o passar dos dias, foi justamente o desabastecimento elétrico que passou a ser um tormento constante para os moradores, tanto da área rural como urbana. A última semana foi marcada por protestos pedindo por mais atenção da CEEE Grupo Equatorial.
Um deles foi realizado no km 31 da BR 293, na divisa entre os municípios de Capão do Leão e Morro Redondo. Com a queima de pneus e galhos de árvores, moradores protestavam contra a demora no restabelecimento do serviço. Um delas foi a produtora rural Cássia Marques, da Capela da Buena, que aponta estar há oito dias sem água e energia. “Somos pequenos produtores e não estamos conseguindo sobreviver. Eu mesmo sou produtora de pequenos animais, como pinto e perdi todos. Perdi todos os ovos que estavam na chocadeira prestes a descascar, então está bem complicado, estamos carregando água de balde para poder tomar banho”, aponta.

do Capão do Leão protestaram no km 31 da BR 293 contra a demora no restabelecimento de energia. (Foto: Eduardo Silva/JTR)
A dona de casa Janaína Cardoso conta que perdeu carne e o leite que a filha, de colo, toma. “Muito desperdício. Sem luz é ruim para dar banho nela”, reclama. Ela afirma que mesmo após contatos com a empresa, as demandas não são atendidas.
Como medida emergencial, prefeitos da Associação dos Municípios da Zona Sul (Azonasul) realizaram uma reunião com a companhia para tratar sobre o problema na segunda-feira (13). “Solicitei agenda ao vice-governador Gabriel Souza (MDB) e ele marcou na presidência da CEEE. A gente esteve lá com os prefeitos onde a gente pôde relatar todas as situações dos nossos municípios e, principalmente, as angústias que a gente vivencia devido à falta de energia”, conta Vinicius Pegoraro (MDB), prefeito de Canguçu.
Segundo ele, o encontro buscou ajuda para as famílias que estavam há dias sem energia, correndo o risco de perder produtos. “Principalmente aquelas famílias mais carentes que estão, em alguns casos, nos locais mais distantes das zonas urbanas dos nossos municípios. Essas famílias agricultoras normalmente criam um animal durante um ano, depois realizam o abate e guardam essa carne no freezer para ter alimento durante o ano inteiro. Com a falta de luz já chegando no oitavo dia muitas dessas famílias tiveram que colocar alimentos fora, tiveram que colocar carne fora porque o freezer não aguentou”, explica.
O prejuízo, conforme ele, se estendeu ao comércio, mas prejudicou principalmente os microempresários. “Além disso a gente tem pequenos comerciantes da zona rural do município que tiveram que botar produtos fora, sem falar em quem depende da energia elétrica para tratamento, essa sempre foi a nossa maior preocupação do restabelecimento”, pontua.
Quanto aos prejuízos financeiros, ele esclarece que ainda não é possível quantificar, uma vez que cada município ainda está fazendo o próprio levantamento. Pegoraro lembrou que, ao fim da reunião, a distribuidora havia se comprometido a destinar mais equipes para a região, o que, segundo ele, foi cumprido.
De acordo com o Informativo Conjuntural produzido pelo Escritório Regional da Emater/RS-Ascar, foram registrados diversos estragos no meio rural, principalmente em estufas agrícolas. Ao menos sete estruturas acabaram danificadas em Rio Grande, que também registrou estragos em lavouras de hortaliças. Pelotas teve a área da olericultura entre as mais prejudicadas, com perdas de estufas e túneis baixos.
A atividade leiteira também sofreu o impacto da passagem do ciclone. Em Capão do Leão e Canguçu, produtoras de leite precisaram utilizar geradores, o que elevou o custo da produção. No entanto, os produtores que não contavam com o aparelho acabaram perdendo o produto diante da impossibilidade de resfriamento do leite.
Em toda a Princesa do Sul, 70 residências ficaram destelhadas, além de 49 escolas danificadas, duas Unidades Básicas de Saúde, duas unidades de Assistência Social, cinco paradas de ônibus e seis pontes danificadas na Zona Rural. Ainda foi registrada a morte de um homem de 45 anos, que morreu soterrado após tentar retirar uma árvore derrubada pelo ciclone.
Ainda que boa parte da limpeza urbana na cidade já tenha sido feita, a administração do município afirma que ainda há muito trabalho. Para o diretor de ações ambientais da Secretaria de Qualidade Ambiental (SQA), Luiz Eduardo Tejada, serão necessários aproximadamente 15 dias para terminar por completo as ações. “Estamos chegando a um ponto de normalidade no atendimento porque as demandas que estão chegando em nossos canais de comunicação já estão sendo atendidas no mesmo dia. O prazo é principalmente por causa do recolhimento”, diz. O chefe da pasta reforçou que os serviços realizados em conjunto com a empresa tiveram prioridade para as equipes. As demandas mais urgentes que envolviam árvores que interferiam no fluxo do trânsito e de pedestres ou apresentavam risco.
Na quinta-feira, a prefeita Paula Mascarenhas (PSDB) assinou decreto de situação de emergência devido aos estragos. As perdas na agricultura são estimadas em R$ 3 milhões, conforme dados da Emater/RS-Ascar. Os danos em prédios públicos ainda estão sendo calculados.
A CEEE Grupo Equatorial, através de sua assessoria de comunicação, alegou que diversos fatores dificultaram a prestação do serviço de forma rápida. Por se tratar de um fenômeno de grandes proporções, a companhia argumenta que acabou se deparando com agravantes como a dificuldade de acesso por conta de pontos alagados, a quantidade de árvores de grande porte e objetos como partes de telhados caídos sobre a rede e a necessidade de reconstrução de postes avariados em toda a rede.
Segundo o último boletim divulgado antes do fechamento desta edição, a empresa contabilizava cerca de 2,5 mil clientes sem energia elétrica, sendo 800 em Pelotas, 200 em Canguçu, 150 em Morro Redondo, 700 em Rio Grande, 500 em São Lourenço do Sul e 300 em Camaquã. Em todo o estado, 715 mil pontos chegaram a ficar sem o serviço após o ciclone.



