Recém-nascido vai a óbito durante transferência e família pede por justiça em São Lourenço do Sul

Luciana Stallbaum e Márcio Krüger durante o chá de bebê de Lorenzo. (Foto: Arquivo Pessoal)

Um triste caso vem comovendo a comunidade lourenciana: no dia 26 de setembro, Márcio Ivandro Krüger fez um triste desabafo em seu perfil no Facebook e conta que sua esposa, Luciana Stallbaum, estava à espera de Lorenzo, o primeiro filho do casal. Ele faleceu um dia após o seu nascimento, a caminho do Hospital Universitário Dr. Miguel Riet Corrêa Jr. (HU-FURG). A família alega que houve uma grande espera para conseguir vaga em leito de UTI neonatal, além da demora para o transporte do recém-nascido.

Em postagem na rede social, o pai contou que sua esposa deu entrada na Policlínica de São Lourenço do Sul na sexta-feira (24), por volta das 17h. No local, o médico a examinou e concluiu que ‘não poderiam fazer nada’ e que ela precisaria ser transferida para a Santa Casa de Misericórdia do município. Em seguida, o casal dirigiu-se até o hospital, onde Luciana não foi aceita de imediato, sob a justificativa de que não havia dado entrada no próprio hospital, mas na Policlínica. Segundo Krüger, a Santa Casa aceitou dar entrada na gestante após insistência. Ao ser atendida pelo médico, concluiu-se que Luciana estava entrando em trabalho de parto e que seria necessário um leito em UTI neonatal, pois o bebê nasceria prematuro, com 31 semanas.

Somente às 11h de sábado (25) surgiu uma vaga para o recém-nascido e, como seria necessária uma ambulância equipada, o casal foi comunicado que um veículo de Pelotas se deslocaria até o município, em no máximo duas horas. Porém, o pai conta que a espera foi de quatro horas. Lorenzo, faleceu na ambulância, no trajeto para Rio Grande, onde o leito na UTI neonatal havia sido disponibilizado.

Os pais, Luciana e Márcio, à espera de Lorenzo (Foto: Arquivo pessoal)

Entrada da gestante na Policlínica

Após a abertura da Policlínica 24h em São Lourenço, moradores do município e interior acabam “confusos’’ quanto ao local que devem ir em caso de emergência. O pai conta que aos primeiros sinais da chegada de Lorenzo, ele e Luciana não sabiam para onde se dirigir: “A gente não sabe agora, aquilo está uma confusão, um empurra para o outro, da Santa Casa para a Policlínica”, afirmou.

O casal decidiu ir até a Policlínica buscar ajuda. Lá – onde os exames de Luciana para acompanhamento da gravidez eram feitos – foram informados que o atendimento poderia ser feito no próprio local.

A secretária de Saúde do município, Adriane Huber Martins, diz que, em casos como este, é recomendado que a gestante se dirija até a Santa Casa, que dispõe de maternidade.
Questionada sobre por qual motivo a Policlínica aceitou dar entrada na paciente e não a encaminhar diretamente à Santa Casa, Adriane disse: “Qualquer serviço de saúde que está com as portas abertas, tem obrigação de atender o paciente que o procura. O médico plantonista, quando constatou a situação, pediu imediatamente uma avaliação de conforto fetal à Santa Casa, bem como o seu encaminhamento para a Santa Casa, a qual foi negada em um primeiro momento”.

No entanto, Krüger conta que, ao serem atendidos na Policlínica, o médico constatou que a dor que Luciana estava sentindo era normal. O profissional receitou medicamento e, segundo Krüger, os liberou para voltar para casa: “Ele só apertou a barriga da minha mulher e disse que era uma dor normal, porque a criança estava ficando com pouco espaço na barriga. Ele só receitou remédio para dor e mandou fazer exame de urina e disse que poderíamos voltar para casa”.

Conforme o pai de Lorenzo, enquanto eles esperavam para realizar o exame, uma enfermeira estranhou o comportamento de Luciana e perguntou o motivo. “A enfermeira perguntou por que a minha mulher estava gemendo tanto de dor”, lembra. A profissional, examinando Luciana, percebeu que ela estava entrando em trabalho de parto e seria necessário que o médico fizesse o exame de toque. Ao procurar o médico, Krüger conta que, em um primeiro momento, ele se recusou a fazer o exame, já que havia constatado que ‘não era nada demais’. Após insistência, o médico realizou o procedimento e confirmou a informação dada pela enfermeira.

Transferência do recém-nascido para Rio Grande
O administrador da Santa Casa do município, André Hinterholz, explica que a Policlínica atende casos de baixa até média complexidade e que o médico analisa a situação de cada um. Ele completa dizendo que, no caso de Luciana e Krüger, o ideal seria dar entrada diretamente na Santa Casa, através do pronto-socorro. Hinterholz conta, também, que não possui conhecimento de que existam ambulâncias com incubadoras disponíveis no município e que a coordenação da Policlínica pediu ajuda da Santa Casa na solicitação de veículo para transferência do bebê para o hospital em Rio Grande.

A titular da Saúde de São Lourenço do Sul confirmou que o município não possui ambulâncias bem equipadas para fazer o transporte de emergência desses pacientes para outros hospitais da região.

Segundo o administrador, nos casos em que a distância entre um hospital ao outro seja inferior a 200 quilômetros, segundo a legislação, o município é responsável por decidir de qual maneira será feito o transporte. Quando a distância ultrapassa o raio de 200 quilômetros, a responsabilidade fica a cargo do Estado. Hinterholz aponta que a administração da Santa Casa entrou em contato com o Setor de Transporte da prefeitura para fazer a transferência do paciente e que o hospital ofereceu amparo ao município, disponibilizando berço aquecido e aparelho de oxigênio (campânula de O²) para o transporte do recém-nascido, mas que o município constatou não ser o adequado neste caso. A secretária declarou que somente a campânula foi oferecida e que a Santa Casa solicitou o transporte. “Sempre é a instituição de saúde onde está o paciente internado que solicita o transporte”, afirmou Adriane.

Na quarta-feira (29), a Santa Casa emitiu uma nota, em que relata que a gestante chegou às 20h14 de sexta-feira (24), e que no acolhimento do Pronto Socorro, a gestante foi classificada como muito urgente. Após avaliação, constatando a urgência, o hospital aponta que foi verificada a necessidade de transferência para hospital que tivesse UTI neonatal.

Na nota, a Santa Casa afirma que a orientação recebida foi de cadastrar o recém-nascido através do Gerint (sistema que trata da regulação estadual de leitos). A administração afirma que o parto ocorreu às 22h10 do dia 24, na maternidade da Santa Casa. “No decorrer da noite por volta das 23h20, a equipe técnica da Santa Casa já sinalizava para a equipe técnica da Policlínica 24 horas do Município, a possibilidade de transferência para Rio Grande caso o leito fosse disponibilizado pelo Gerint”.

Ainda segundo o texto, a vaga para qual Lorenzo foi designado em Rio Grande, foi confirmada através do Gerint no dia 25, às 10h56. O transporte do recém-nascido foi autorizado pelo estado do Rio Grande do Sul, com previsão de chegada da ambulância à Santa Casa às 15h. A transferência de Lorenzo, com destino ao hospital de Rio Grande, ocorreu às 15h45, realizada com equipe e transporte de uma empresa.

O pai de Lorenzo, pede que o município receba maiores investimentos na área da saúde: “A dor que eu e minha mulher estamos passando, não quero que ninguém passe, por isso faço essa publicação, para que invistam mais em leitos para crianças, porque você constrói um sonho, se prepara para receber o bebê, mas por falta de leito, negligência médica, tudo acaba”. Ele finaliza o desabafo pedindo por justiça: “Eu quero fazer justiça pelo meu filho, porque é a única coisa que ainda posso fazer. Quero que tomem providências em relação a isso, que não seja mais uma criança indefesa passando por isso”.

Confira o relato completo de Márcio Ivandro Krüger

!!!DESABAFO!!!

Sou pai do Lorenzo Stallbaum Krüger. Meu filho veio a falecer ontem, dia 25 de setembro às 17hs numa ambulância, com um dia de vida, indo em direção para Rio Grande, para um leito de UTI neonatal.

Mas isso não teria acontecido, se ele tivesse conseguido chegar antes, num leito. Não dá pra entender uma coisa, nesse nosso SUS, ou como funciona. Porquê, minha mulher deu entrada no dia 24 de setembro, na policlínica de São Lourenço do Sul, lá o médico o examinou e foi ver, que não poderiam fazer nada, que tinha que transferir pra outro lugar, aí começa a novela.

A própria Santa Casa de São Lourenço do Sul, não poderia aceitar a minha mulher, porque não tínhamos dado a entrada lá, na Santa Casa primeiro, depois de muita luta, conseguimos. Depois que demos a entrada, o médico veio a examinar e constou, que estava em fase de parto, que precisa urgente, de um leito neonatal, pois a criança, ia nascer prematura. Aí começamos a ligar pra todas as cidades, e nada, estava tudo cheio. Falamos com a secretária da saúde também, e nada. Que ela também ia fazer o possível.

“Pois é, aí tivemos a graça de Deus, de ter uma vaga em Rio Grande. Mas minha mulher teve o parto, na Santa Casa de São Lourenço do Sul, aí queriam levar ela pra Rio Grande, pois lá tinha uma vaga neonatal e não queriam aceitar ela, porque ela tinha feito o parto aqui, aí não poderiam aceitar, o parto tinha que ser feito em Rio Grande. Aí que eu não consigo entender, se tinha uma vaga, porque não poderia levar ela com o bebê pra lá, pra Rio Grande, porque a prioridade era o bebê, porque precisava do leito, com urgência. Não aceitaram.

Aí depois outro dia, dia 25 de setembro, às 11hs, aparece uma vaga de novo em Rio Grande, mas aí começa outra novela. Tinha que vir uma ambulância de Pelotas, porque a ambulância tinha que ser bem equipada, previsão era no máximo de duas horas, pra ambulância vim, mais não, levou quatro horas pra vim de Pelotas pra São Lourenço. Mais a ambulância que veio de Pelotas, era a mesma ambulância de São Lourenço que tem, só mudava que essa tinha uma incubadora dentro, mais não poderia ter pegado a ambulância que tem em São Lourenço, e só ter pegado a incubadora que tem no hospital da Santa Casa de São Lourenço, e ter saído pra Rio Grande, porque era muita urgência. Meu filho, os segundos contavam pra ele.

Se tivessem saído às 11hs da manhã de ontem, pra Rio Grande, tinha chegado bem tranquilo.

E nada do que aconteceu, tinha acontecido, porque agora ninguém é o culpado, todo mundo passa um para o outro, ninguém quer assumir a responsabilidade.

Mais a dor que eu e minha mulher estamos passando, não quero que ninguém passe, por isso que faço essa publicação, que invistam mais em leitos para criança, porque você constrói um sonho, se prepara para receber o bebê, mais por falta de leito, negligência médica, tudo acaba.”

Nota de esclarecimento da Santa casa

“NOTA DE ESCLARECIMENTO

SANTA CASA DE MISERICÓRDIA DE SÃO LOURENÇO DO SUL vêm à público esclarecer os fatos envolvendo esta instituição no que se refere ao falecimento do recém nascido LOURENZO STALLBAUM KRUGER ocorrido na data de 25 de setembro p.passado em trânsito para a cidade de Rio Grande/RS.

Primeiramente cabe informar que a gestante Luciana Thurow Stallbaum chegou no Pronto Socorro da Santa Casa de Misericórdia de São Lourenço do Sul às 20hs.14min. do dia 24.09.2021.

No acolhimento do Pronto Socorro, a gestante foi classificada como muito urgente.

A paciente foi avaliada pelo médico plantonista do Pronto Socorro, ocasião que este solicitou avaliação obstétrica, que foi de pronto atendido, e em virtude da urgência e por se tratar de trabalho de parto prematuro, verificou a necessidade de transferência para hospital de maior complexidade, hospital que tivesse UTI Neonatal, quando iniciaram os contatos com as referências pactuadas.

Na ordem: Central de Leitos Regional Pelotas; Central de Leitos do Estado que sugeriu ligar para Rio Grande, pois segundo a regulação, fica leito reservado para casos especiais. Foi realizado contato telefônico com o médico plantonista do centro obstétrico do HU Furg, o qual pediu que falasse com o Médico Pediatra de plantão; novo contato foi feito com o Pediatra de plantão no HU Furg e que categoricamente afirmou não haver leito disponível.

A seguir nos foi orientado pela Central Regional Estadual, cadastrar o recém nascido no Gerint, o qual foi realizado às 21hs.02 min, sistema este que trata da regulação estadual de leitos. Situação acompanhada e orientada também pela Delegada da 3ª Coordenadoria Regional de Saúde de Pelotas.

Na sequência recebemos a ligação do Médico Obstetra de plantão no HU Furg dizendo que haveria vaga, caso o bebê viesse no útero da mãe.

O Médico Obstetra da Santa Casa ao avaliar a paciente para efetuar a transferência imediata, esta já se encontrava em dilatação completa sendo impossível enviar a paciente naquela situação.

Em que pese todas as tentativas infrutíferas de encontrar um leito neonatal, o parto ocorreu às 22hs.10min. do dia 24.09.2021 na sala de parto da maternidade da Santa Casa, parto sem intercorrências e o recém nascido, prematuro, atendido pelo Médico Pediatra de plantão, ficou aguardando disponibilidade de leito em UTI neonatal.

No decorrer da noite por volta das 23hs.20min a equipe técnica da Santa Casa já sinalizava para a equipe técnica da Policlínica 24 horas do Município, a possibilidade de transferência para Rio Grande caso o leito fosse disponibilizado pelo Gerint, e neste caso o transporte é responsabilidade do Município, onde obtivemos a resposta que o setor de transporte (pátio das ambulâncias) já estariam avisados que quando chamados teria que ser ágil.

No dia 25.09.2021 às 10hs.56min foi confirmada pelo GERINT, a disponibilidade de um leito, em UTI neonatal, na FURG/Rio Grande. Imediatamente, a equipe da Santa Casa comunicou o setor de transporte do Município de São Lourenço do Sul, através do telefone 08006430192 no horário das 10hs.59min, no qual o servidor municipal desta cidade informou, que iria comunicar a equipe técnica do Pronto Atendimento da Policlínica 24 horas do Município; ato contínuo a equipe do IBSaúde ( Policlínica 24 horas) se deslocou até a Santa Casa para avaliar as condições de transferência do recém nascido, ocasião em que a Santa Casa disponibilizou à coordenadoria da Policlínica os equipamentos que a instituição possui e necessários para que o recém nascido fosse transferido, momento que disponibilizou-se um berço aquecido e uma campânula de O2, com esses equipamentos poderia ser realizado o transporte em seguida.

Após decorrido a visita da equipe da Policlínica 24 horas à Santa Casa, houve de parte do diretor da policlínica, o entendimento de solicitar através da Santa Casa (porque esta é quem detém o sistema GERINT), o transporte do recém nascido para FURG/Rio Grande via Secretaria Estadual de Saúde (SES) e que este transporte fosse realizado pela MOVILCOR. Em que pese a enfermeira responsável técnica da Santa Casa ter questionado o diretor da Policlínica, com base na Resolução nº 005/18-CIB/RS e Ofício nº 382/21, de 17/06/2021, onde a Delegada de Saúde da 3ª CRS ratifica a referida Resolução, que o transporte num percurso de até 200km de distância é de responsabilidade do município do paciente. A equipe técnica da Santa Casa imediatamente solicitou o transporte via GERINT.

A título de maior esclarecimento conforme a Delegada de Saúde informa na data de 17/06/2021 às 12hs.13min., por e-mail à Santa Casa com cópia para conhecimento da Secretária Municipal de Saúde do município, o seguinte: “ Bom Dia, Reforço que quando se fala em transporte de paciente para remoção, é equipe completa e o transporte….”. Entenda-se equipe completa como ambulância equipada, motorista, médico e equipe de enfermagem do Município.

O transporte do recém-nascido foi autorizado pelo Estado do Rio Grande do Sul, com previsão de chegada à Santa Casa às 15hs.00min., ocorrendo a transferência do recém nascido com destino a Rio Grande, às 15hs.45min., realizada pela equipe e transporte da empresa MOVILCOR.

Diante do acima exposto vêm a Santa Casa em resposta as inúmeras manifestações, esclarecer o que realmente aconteceu e a verdade dos fatos, todos eles provados através dos documentos que ficam registrados nos atendimentos. Com isto não quer culpar ou polemizar com ninguém, mas, quer esclarecer o ocorrido em nome de sempre buscar a excelência no seu atendimento à comunidade lourenciana.

São Lourenço do Sul, 29 de setembro de 2021.

Presidente – Herberto Buss”.

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