Lama no Cassino: o fenômeno que volta a gerar questionamentos no verão

Com a chegada da alta temporada, origem do material ainda divide especialistas. (Foto: Divulgação/Prefeitura de Rio Grande)

Em pleno verão, quando a Praia do Cassino volta a ser ocupada por visitantes, a presença recorrente de lama na faixa de areia e no mar volta a provocar estranhamento. A coloração escura e o aspecto viscoso do sedimento transformam um fenômeno antigo em um dos temas centrais da temporada, que iniciou em dezembro de 2025, quando a lama esteve presente até ser realizada a limpeza para os festejos de fim de ano.

Como estão acostumados os moradores do Balneário, o material não surge de forma contínua. Aparece, desaparece e retorna conforme mudanças no clima. Ainda, sempre que se acumula na orla, levanta o mesmo questionamento: afinal, de onde vem toda essa lama?

A professora Elaine Goulart, mestre em Oceanografia e docente da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), afirmou que o processo que leva o material até a praia é relativamente conhecido do ponto de vista físico. “A lama que aparece na Praia do Cassino se acumula, ao longo do tempo, em áreas mais profundas logo à frente da linha de costa. Quando esse depósito atinge grandes volumes e ocorre a passagem de uma tempestade com ondas mais altas, esse material pode ser mobilizado e transportado para a praia”, explicou.

A origem do material divide especialistas

Se o transporte da lama é compreendido, a origem desse sedimento continua sendo um ponto controverso da discussão. Conforme Elaine, não existe consenso científico sobre o tema, nem mesmo entre o meio acadêmico local.

“Dentro da comunidade científica — inclusive no próprio Instituto de Oceanografia da FURG — existem duas principais linhas de interpretação”, afirmou. Uma delas, conforme a professora, entende que a lama tem origem predominantemente natural, associada ao aporte de sedimentos provenientes da Lagoa dos Patos, cuja vazão varia conforme a frequência de chuvas.

A outra relaciona o fenômeno às atividades de dragagem realizadas no estuário, que poderiam contribuir para a produção e disponibilização desse material no sistema costeiro.

“Diversos estudos já foram realizados, mas nenhuma das duas hipóteses foi definitivamente comprovada”, ressaltou Elaine. Segundo ela, não se pode descartar, ainda, que a lama seja resultado da combinação de processos naturais e aqueles gerados por ação humana.

Dragagem

Comumente relacionado às dragagens realizadas pela Portos RS, o surgimento de lama na orla é, conforme a empresa, “associado à dinâmica natural da região”. Segundo a autoridade portuária, o fenômeno está relacionado às mudanças no curso da Lagoa dos Patos, influenciada pelas chuvas e intensificada em eventos climáticos extremos, como a enchente de 2024.

Em nota, a instituição reforçou que as operações de dragagem seguem todas as condições estabelecidas pelo Ibama, que realiza acompanhamento constante. A empresa afirma, ainda, que não foram identificadas irregularidades nas operações ou no descarte de sedimentos.

“A Portos RS informa que os monitoramentos mensais mostram a presença de um bolsão de lama em locais mais profundos, que poderá ser direcionado para regiões mais rasas e, consequentemente, para a área emersa da praia, devido à direção e intensidade dos ventos e ao padrão de ondas gerados pelo ciclone extratropical”, reforçou.

O monitoramento das atividades é realizado em parceria com a FURG, por meio do Sistema de Monitoramento da Costa Brasileira (SiMCosta).

Após o ocorrido, a praia encontra-se limpa e liberada para circulação. (Foto: Divulgação)

A percepção de quem frequenta a praia

A universitária Júlia Ferreira (20), natural de Candiota, no interior do Rio Grande do Sul, relatou que sempre frequentou o Cassino durante os verões, antes mesmo de se mudar para Rio Grande, onde cursa Ciências Biológicas, na FURG.

Segundo a estudante, o Balneário sempre foi um destino comum para moradores da sua região. “O Cassino é a praia grande mais próxima da minha cidade. Além disso, é bem equipado, com bastante atrações, bares e movimento durante o verão”, explicou Júlia.

Durante os anos em que veraneou junto à família, a jovem nunca havia presenciado o acúmulo de lama na orla. O primeiro contato aconteceu após sua mudança para a cidade. “Fui para praia com meus amigos e uma grande extensão dela estava coberta por uma faixa de lama. Foi uma surpresa, principalmente por eu nunca ter ouvido falar com muitos detalhes sobre isso”, relatou. Embora tenha tomado ciência de que o sedimento é inofensivo, Júlia descreveu que o cenário não era convidativo. “A sensação foi a de frequentar uma praia que não é cuidada”.

E o desconforto se prolongou. A lama, que após algumas semanas se transformou em torrões rígidos, dificultou o deslocamento na orla. “Quase um mês depois, minha mãe veio me visitar e achou ruim ficar na praia, por causa da quantidade de torrões. Era até doloroso andar”, lembrou.

O que diz a Secretaria de Município do Cassino

O secretário do Cassino, Miguel Satt, afirma que, atualmente, a praia encontra-se limpa e liberada para circulação desde segunda-feira (12). Segundo ele, uma combinação de esforços contribuiu para a remoção do barro que permanecia em alguns pontos da orla. “Houve suba da maré, ventos fortíssimos e uma empanação natural. O barro se misturou à areia. A praia está totalmente limpa e liberada, com todos os pontos próprios para banho”, declarou.

Em 2025, um trecho de cerca de 2km foi afetado pelo sedimento e, por segurança, isolado pela Secretaria de Município do Balneário. Equipes técnicas operaram no local para realizar a limpeza e colocação de “marachas” — pequenos muros de areia usados para delimitar determinada área.

Satt reconheceu que não há consenso técnico sobre a origem da lama. Ainda assim, reforçou que, sempre após o fenômeno, a Secretaria intensifica o trabalho e realiza sinalização nos locais afetados. “A praia está belíssima, maravilhosa, em sua plenitude para o usufruto de todos”, concluiu.

Balneabilidade e abastecimento

Sobre a qualidade da água para banho na Praia do Cassino, especialmente diante do acúmulo de lama, o monitoramento realizado pelo Projeto Balneabilidade da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) assegura que os pontos observados no Balneário são próprios para banho.

Quanto ao abastecimento de água potável em Rio Grande, onde está localizada a praia, a Companhia Riograndense de Saneamento (Agean/Corsan) reforça que o sistema de captação não possui relação direta com a água do mar ou com o fenômeno na orla, e por isso não é afetado pelo depósito de sedimentos.