Equipe de robótica da FURG conquista posição inédita em torneio mundial

Time foi o primeiro brasileiro na história da categoria em uma FIRA World Cup. (Foto: Arquivo pessoal)

“Eu nunca tive interesse por drones até entrar na equipe. Lembro que mais ou menos na minha segunda semana de aula foi aberto o processo seletivo para ingressar na equipe de robótica da FURG; e eu, sem muitas expectativas, me inscrevi e acabei me apaixonando pela robótica, pelos drones e pelo time”

As palavras que abrem a reportagem são da estudante de Engenharia de Automação, Andressa Cavalcante da Silva, de 22 anos – assim como as citações após cada intertítulo deste texto. A acadêmica fez parte, ao lado de outros dois colegas, da primeira participação brasileira na categoria de drones da competição internacional FIRA World Cup. O time conquistou a 4ª colocação, mas, além da ótima posição, celebra também o ineditismo e o reflexo que os investimentos em educação, inovação e tecnologia podem ter para a imagem e o desenvolvimento do país.

Andressa é parte integrante do time focado em drones da equipe de robótica da FURG, a FBot – que recentemente participou de outra competição mundial: a RoboCup, realizada na França. Ao todo, o segmento é composto por sete estudantes, no entanto, em função de questões financeiras e logísticas, a comitiva que participou do torneio foi composta por apenas três pessoas. “Foi uma experiência sensacional para mim. Fizemos um trabalho de arrecadar fundos para viabilizar a viagem, no entanto, só foi possível levar três participantes. Mesmo em pouco número, representamos o esforço e o trabalho de um time inteiro”, completou a estudante.

O evento foi realizado na cidade de Wolfenbüttel, na Alemanha, e acontece por meio de quatro categorias: Air, que inclui o uso de drones em cenários urbanos; Sports, cujo objetivo é desenvolver robôs ‘atletas’ com a capacidade de competir contra humanos em eventos olímpicos; Challenge, que foca em desafios complexos do setor industrial, de resgate e serviço; e, por fim, a categoria Youth, que compila competições para equipes compostas por jovens em idade escolar.

De acordo com Andressa, esta foi a primeira viagem internacional do grupo, em um país com língua e cultura diferentes. Para a estudante, lidar com essas necessidades de adaptação, superar imprevistos e resolver problemas técnicos ensinou aos participantes características que farão a diferença em suas formações. “Nós representamos também a força e a capacidade que a Universidade Pública Brasileira tem, e o quanto os investimentos em educação podem levar o Brasil aos pódios mundiais”, completou.

Segundo informações da organização do evento, a iniciativa surgiu como um desafio internacional de ‘futebol robô’, com características de robótica avançada. A competição existe desde 1996 e tem o objetivo de fomentar interesse pela robótica nas novas gerações.

Durante o desafio… mais desafios

“No meio de uma das tarefas o nosso drone quebrou. Corremos para arrumá-lo com as ferramentas que tínhamos disponíveis na hora”

O nome da categoria em que a equipe disputou se chama Emergency Service Indoor, do inglês, algo como “Serviço de Emergência Interno”. O objetivo das provas consistia em realizar tarefas em que o drone pudesse auxiliar seres humanos em diversas situações de emergência como entregar caixas de remédio; inspecionar torres elétricas e até mesmo prédios em chamas para identificar a presença de vítimas. Tudo isso enquanto desvia de obstáculos internos.

Entre os desafios que se apresentaram durante o evento, Andressa cita alguns como problemas na calibração de sensores e a mudança de estratégias que exigiram novas programações de última hora. “Tivemos uma série de imprevistos, inclusive, perdemos o primeiro dia de competição devido a problemas de logística. Foi uma semana de competição em ritmo intenso; trabalhamos muito e dormimos pouco”, lembra e ri a estudante.

Histórico vitorioso

“Nosso time é bicampeão da competição de robótica latino-americana, e, em 2021, conquistamos o terceiro lugar. Esse ano conquistamos mais do que uma posição, conquistamos o ineditismo de participar pela primeira vez na categoria de drones da FIRA World Cup”

A equipe de robótica da FURG é reconhecida internacionalmente e, nos dias atuais, ocupa uma posição prestigiada entre os dez melhores times do mundo. No entanto, na categoria de drones, a história começa com um projeto de pesquisa chamado Hydrone, coordenado pelo professor do Centro de Ciências Computacionais (C3), Paulo Drews.

“Quando cheguei na FURG, em 2016, trouxe comigo um projeto de pesquisa cujo objetivo científico estava no desenvolvimento de um veículo híbrido, capaz de operar atividades tanto no ar quanto na água. O veículo mais adequado para desempenhar essas tarefas é o drone de múltiplas hélices, e, sabendo disso, iniciamos nossas atividades com inúmeros trabalhos e publicações. Três anos mais tarde, em 2019, organizamos o evento Robótica, aqui na universidade, e, por coincidência, naquela edição, integrou-se à programação uma competição de drones, com financiamento da Petrobras”, recorda o professor.

Na ocasião, a universidade recebeu um público de aproximadamente 10 mil visitantes, ao longo de cinco dias de atividades que abrigaram seis sub-eventos; um deles a Competição Latino-Americana de Robótica (Larc) – maior evento do continente na temática. Drews então conversou com os estudantes que trabalhavam no projeto para saber do interesse do time em participar da recém criada categoria de drones, intitulada Desafio de Robótica Petrobrás. No momento, a ideia era oferecer uma experiência não tanto competitiva, mas de aprendizado; que pudesse qualificar o trabalho do projeto a longo prazo.

O desafio consistia em fazer o veículo voar – autônomo -, em um ambiente que simulava uma off-shore, identificando sensores, transportando material de um lado para outro, e assim por diante. Ao fim da prova, a equipe Hydrone sagrou-se campeã da primeira edição do evento, e, ao lado de outras dez equipes, foi uma das selecionadas para receber um recurso de incentivo da Petrobras.

No ano seguinte, em 2020, a equipe repetiu o feito, tornando-se bicampeã do torneio. Segundo Drews, até então o projeto competia de forma independente, sem ligação à equipe de robótica oficial da FURG. No entanto, pela proximidade das atividades, e até mesmo dos professores que se envolvem nos projetos, foi decidido unir os times. Hoje, o grupo de competição Hydrone é um dos times que compõem a FBot.

Financiamento

“O dinheiro em geral é o nosso maior limitante. Temos patrocinadores, mas os custos de viagem internacional são muito altos; é sempre uma luta conseguirmos algo”

Quem possibilitou a ida da pequena comitiva à Alemanha foi o Programa de Formação de Recursos Humanos para o Setor de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (PRH-ANP), por meio do projeto PRH-22, que atua dentro da FURG desde 2019.

Esta ferramenta de financiamento foi criada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), implementada desde 1999, como forma de executar a política pública prevista de estímulo a pesquisa e adoção de novas tecnologias no setor.

Dividido em fases de atuação, desde o seu mais recente ciclo de atividades, a ferramenta tem gerência da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), possibilitado por meio de um Acordo de Cooperação Técnica e Financeira celebrado em 2018.

A iniciativa, na FURG, tem a intenção de formar profissionais com destacada experiência nas tecnologias digitais e de automação para o mar. Esta formação, de natureza interdisciplinar, perpassa projetos dos mais diferentes tipos e formatos; o que possibilitou a arrecadação de fundos para viabilizar o deslocamento da comitiva para a competição.

Segundo Andressa, o time já vislumbra outra competição no horizonte, e a equipe está se preparando para buscar recursos.

Sobre a experiência

“Com certeza, a partir dessa oportunidade, trazemos conosco uma série de novas ideias e aspirações para fazermos ainda melhor da próxima vez”

Segundo Andressa, um dos pontos mais positivos da experiência foi a possibilidade de trocar informações e conhecimentos com outros times, não apenas em aspectos técnicos, mas também acerca de soluções práticas que fazem a diferença em determinadas situações e cenários reais. “O objetivo da nossa participação é, por meio da competição, agregar conhecimentos que contribuam para o desenvolvimento de tecnologias, e, assim, crescer, aprender e aplicar tudo isso no desenvolvimento dos nossos drones”, declarou a estudante.

 

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