
A apicultura é uma atividade econômica que vem favorecendo a geração de renda para os agricultores familiares da Zona Sul. Segundo a Emater/RS-Ascar, a região soma 1.047 apicultores e cerca de 24 mil colmeias – se consolidando como uma das três maiores produtoras de mel do RS, ao obter também produtos como cera, própolis e geleia real.
Mesmo com os números e a produção em alta, há uma série de obstáculos identificados a serem superados para que a cadeia do mel seja de fato estruturada. O Dia Nacional das Abelhas, celebrado dia 3 de outubro, chama atenção sobre esses desafios.
Atualmente, do total de apicultores da região, há 303 espalhados por 22 municípios que são assistidos pela Emater. Este grupo mantém 14,5 mil colméias das 24 mil existentes em toda a Zona Sul. Conforme a coordenadora regional de Sistemas de Produção Animal da Emater, Mara Saalfeld apenas 194 toneladas das 1,7 mil toneladas de mel produzidas no Rio Grande do Sul são comercializadas oficialmente.

“A apicultura ainda precisa de uma formalização. Então, a Emater tem trabalhado muito no incentivo à formação de agroindústrias e a questão do associativismo desses apicultores, porque acaba se tornando oneroso. Nós temos, na região, um trabalho com esses apicultores para incentivar a questão do associativismo. Temos alguns municípios que estão com assessoria nessa área e associações funcionando em Pinheiro Machado, Pelotas, Canguçu, Herval, Rio Grande e São Lourenço do Sul”, explicou.
Diante desse cenário, segundo Mara, a Emater tem se empenhado para que, a partir das associações, haja a criação de agroindústrias para maior benefício dos apicultores, que poderão expandir seus mercados. O desafio, de acordo com a coordenadora, é o de incentivar a abertura de agroindústrias de mel na região, pois a partir delas é possível obter um preço maior pelo produto e expandir o comércio para outras cidades da região.
“O trabalho da Emater na apicultura começa dando assistência individual aos apicultores e a gente vai trabalhando para que possam melhorar, agregando valor no mel, encaminhando-os para cursos de apicultura. Temos na Emater cursos, não só aqui no nosso Centro de Treinamento em Canguçu, mas em outros centros de treinamento do Estado voltados para o setor”, afirmou.
De acordo com ela, os cursos auxiliam os produtores a se qualificar e, a partir disso, passar a fornecer sua produção para uma associação ou iniciativas particulares.

Falta de hábitos de consumo é desafio para produtores
Uma das barreiras a ser vencida para viabilizar o mel como principal fonte de renda para produtores é a necessidade de aumento do consumo. Atualmente, conforme análises do mercado, o mel costuma ser visto por grande parte dos consumidores apenas como um remédio natural, ao invés de alimento.
Com mais de dez anos de experiência o apicultor pelotense Ivonir Wrege, que atualmente trabalha com 12 caixas, o mercado ainda é muito restrito. “Falta reconhecimento para o produto e o consumo é pouco. As pessoas não têm o habito de usar o mel na alimentação”, garantiu.
Em Piratini, o apicultor Neri Duarte iniciou em 2002 seu cuidado com as abelhas e em 2021 investiu na abertura da primeira agroindústria da cidade, dedicada a produção de mel. O empreendimento, no entanto, não decolou e teve que fechar as portas três anos depois por falta de mercado. “Pensei em crescer e até contratar pessoas para trabalhar, mas o negócio não deu lucro. No último ano, como não estava tendo retorno acabei doando todo o mel para os vizinhos e instituições do município. Mantive as caixas para preservar as abelhas, sem obter nenhum tipo de ganho”, afirmou.

Já o apicultor Octávio Gonzales, de Pelotas, que exerce a atividade há mais de 20 anos e possui 100 caixas de abelha, revela que a produção de mel representa 40% de sua renda. Para ele o mercado pode valer a pena devido à um segmento de consumidores preocupados em consumir alimentos naturais e saudáveis, mas ainda possui dificuldades. “Na minha opinião, vale a pena, porque a demanda por mel puro está em aumento, as pessoas estão à procura de cuidar de sua saúde com produtos de boa qualidade. Aqui nessa região de Pelotas, para a apicultura se desenvolver precisaríamos ter um bom grupo de apicultores associados ou cooperados”, ponderou.
De acordo com Mara a valorização do mel inicia com o entendimento da população que se trata de um alimento rico em sais minerais e de alta qualidade, o qual tem potencial para estar todos os dias na mesa do brasileiro, devido à qualidade e disponibilidade, já que cada caixa de abelha pode produzir de 15 a 40 quilos de mel por ano.
A nutricionista Isabel Sacco destaca que pode ser utilizado como ingrediente em preparações para conferir o sabor doce. “O mel funciona como uma fonte de energia como qualquer outro carboidrato simples. Além disso, dependendo de alguns fatores que influenciam a sua composição, parece haver propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e antibacterianas”, afirmou.
Necessidade x adversidades
A indústria da Zona Sul também carece do mel fiscalizado disponível para a produção de outros produtos que o utilizam na composição como biscoitos e doces. “Tem uma grande indústria de Pelotas que tem produtos panificados e tem o pão de mel. Antigamente, esse pão de mel era produzido com mel que vinha de outros estados até porque não tinha agroindústrias legalizadas aqui na região. E, hoje, essa fábrica, que tem projeção nacional, adquire esse mel dos produtores da região que tiveram suas agroindústrias legalizadas”, comentou o extensionista da Emater, Renato Cougo. Conforme Cougo existem, atualmente, nove agroindústrias de mel estabelecidas e outras três em fase de instalação.

As mudanças climáticas também podem prejudicar o manejo com as abelhas e a recepção dos produtos da colmeia, pois as chuvas intensas e inundações causam a destruição de colmeias, reduzem a atividade de polinização, afetam a floração das plantas que servem de alimento e podem levar ao enfraquecimento das colônias, resultando em perdas para os apicultores e em ameaça à segurança alimentar.
Além disso, em períodos chuvosos, as abelhas não saem das colmeias para voar, o que afeta diretamente sua atividade de polinização. A chuva em excesso pode, ainda, danificar a vegetação, diminuindo as fontes de néctar para as abelhas, fundamentais para sua sobrevivência. As adversidades climáticas do ano passado, tiveram impacto direto sobre o número de produtores da região de Pelotas, que diminuiu 12,75% devido ao clima.



