
Com a aproximação do verão e a previsão de um novo período de estiagem, produtores rurais da Zona Sul se preparam para mais um desafio climático que tem se tornado cada vez mais frequente. Enquanto agricultores buscam estratégias individuais de adaptação, municípios e entidades cobram do Estado e da União a criação de políticas públicas mais ágeis e menos burocráticas para auxiliar o setor agropecuário em momentos de crise.
Para os produtores de pêssego da região de Pelotas, o período é particularmente delicado. Mauro Rogério Scheunemann explicou que o ciclo produtivo de seus pomares está começando a causar preocupações em relação ao estresse hídrico. “As primeiras variedades precoces estão começando a amadurecer. Então, uma fase muito delicada na questão de estresse hídrico”, disse.
Scheunemann já havia percebido sinais de estresse nas plantas, principalmente nas variedades precoces com maior carga de frutos. “Quando um pessegueiro tem bastante carga, ele sente mais, as folhas começam a murchar”, descreveu. Com as chuvas do final de outubro, o produtor afirmou que por enquanto não há sinais de perdas significativas na safra.
Investimento em irrigação como resposta
O produtor possui um sistema de irrigação por gotejamento em aproximadamente 80% de sua propriedade. O investimento foi necessário após perdas anteriores. “A gente já passou por estiagem, já perdeu também muita fruta por não ter irrigação, então a gente acaba investindo em irrigação por ter um ganho mais na frente”, justificou.
No entanto, o sistema representa um custo adicional significativo. “O custo de produção aumenta principalmente na questão dos materiais, canos, material de irrigação e principalmente luz e combustível para conduzir essa água até os pomares”, explicou. Quanto ao seguro agrícola, foi direto. “Fica caro para mim, é um custo a mais. Eu não tenho como”.
Sua maior preocupação está relacionada ao fenômeno La Niña – em que as águas superficiais do Oceano Pacífico equatorial resfriam de maneira anormal, causando mudanças globais nos padrões de clima e tempo. “Isso dificulta bastante na produção e o pós-colheita e criação de ramos para o ano que vem. A irrigação ajuda, mas ela não resolve 100% do problema, ela ameniza a situação”, ponderou.
Mudanças estratégicas no campo para culturas sazonais
O produtor de tabaco Mário Klumb, do 6º Distrito de São Lourenço do Sul, antecipa o plantio de milho para tentar aproveitar períodos menos secos. “Não tem muito o que fazer antecipadamente. A plantação de milho nós adiantamos um pouco, mas no geral só resta aguardar que a seca não seja tão severa”, relatou.
Klumb comparou as culturas. “O tabaco aguarda pela chuva por algum tempo, já o milho tem momentos exatos de floração que precisam da chuva e essa janela de tempo é curta”.
Segundo o produtor, recentemente os ventos constantes têm prejudicado mais as plantas do que o sol e o calor. Ele ainda afirma não possuir sistema de irrigação, além de não ter recebido orientações técnicas sobre como enfrentar períodos secos.
No 3º Distrito de Canguçu, Márcio Quintana está migrando parte da produção de verão para culturas de inverno. Sua lógica é clara. “A falta do produto vai impactar o valor dele. Por que as culturas de inverno valem bem? Porque quase não tem, o pessoal não produz. Querem produzir [cultura] de verão, aí tem bastante, então o preço vai lá para baixo”.
Entre as culturas citadas, estão o fumo de inverno, a aveia e o azevém para pastagens.
Para se manter atualizado e produtivo, Quintana trabalha preservando as nascentes e deixando mata nativa ao redor. “Já adotamos práticas de manejo sustentável, com novos açudes e preservação das nascentes”, contou.
Ausência de apoio governamental deixa municípios agonizando
A falta de apoio técnico e financeiro é ponto comum nas falas dos produtores. Quintana foi enfático. “O governo e nem o município ajudam com estes planos. Para nós agricultores não vem nada do governo. Até financiamento está difícil de fazer, pois os juros estão absurdos e não sai [o financiamento]”. Klumb também relatou não contar com apoio financeiro, linha de crédito ou orientação técnica.
Em São Lourenço do Sul, o coordenador da Defesa Civil, Marcelo Soares Ferreira, informou que o município ainda utiliza recursos recebidos do Estado em decorrência da estiagem do início do ano. “O valor está sendo aplicado na locação de um caminhão-pipa, responsável pelo abastecimento de água para algumas famílias no interior”, explicou.
Já Fernando Goetzke, secretário de Agricultura de Canguçu, revelou que o município enfrenta estiagens recorrentes. “No último ano, atendemos de forma emergencial a demanda por água potável e disponibilizamos maquinário para a construção de poços e cacimbas”, relatou. Segundo ele, o município busca constantemente junto ao governo estadual recursos para preservação hídrica e irrigação.
Cobrança por desburocratização
Em recente visita a Brasília, os prefeitos da Associação dos Municípios da Zona Sul (Azonasul) apresentaram à bancada gaúcha e ao Senado a necessidade de estudar as legislações vigentes e criar mecanismos mais ágeis de acesso a recursos. “A gente pediu que estudassem as legislações e um mecanismo de acesso a recursos para os municípios atenderem os produtores, para poder fazer uma estrada, recuperar uma ponte, porque a forma como estava, estava engessando e dificultando muito poder fazer uma recuperação de pronto”, afirmou o presidente da Azonasul e prefeito de Pinheiro Machado, Ronaldo Madruga (PP).
Além da questão da infraestrutura, Madruga defendeu a criação de políticas públicas integradas entre governo estadual e federal para atender o setor agropecuário. “O Estado e o governo federal tinham que sentar juntos e criar medidas que pudessem atender essa clientela através de juros mais baixos, de busca de recursos de acesso não tão burocratizado”, pontuou.
Madruga enfatizou a importância estratégica do agronegócio para a economia. “Quem movimenta o Rio Grande do Sul, quem movimenta o país é o agro. O volume de exportações é muito grande, nós estamos em um ranking elevadíssimo, em uma posição importante de exportação. Se não tivermos apoio a este setor, nós precisamos de apoio porque é a base da economia, é o setor primário”, declarou.
Diálogo acima de disputas partidárias
O presidente da Azonasul defendeu que a solução passa pelo diálogo entre as esferas de governo. “Falar em política pública para o agro é ter o entendimento de um diálogo maduro e deixar as bandeiras de lado, saber quem vai ganhar politicamente, quem ganha mais votos, não é isso que a gente quer. A gente quer buscar o interesse do coletivo e isso o governo do Estado e o governo federal precisam fazer”, afirmou.
Enquanto aguardam respostas, os municípios e produtores da Zona Sul seguem enfrentando os desafios climáticos com recursos próprios limitados, investimentos individuais em irrigação e mudanças nas práticas de manejo, na esperança de que políticas públicas mais eficientes sejam implementadas para auxiliar o setor que é a base da economia do estado e do país.



