Com o avanço do frio e a redução da qualidade do campo, pastagens de inverno garantem a nutrição animal

O período mais crítico para a alimentação do rebanho bovino na região compreende normalmente os meses de abril, maio e junho. (Foto: Divulgação)

Com a conclusão das colheitas das culturas de verão, especialmente do arroz e da soja, os campos antes ocupados pelos grãos dão lugar aos animais, que precisam de uma boa nutrição a fim de atravessar os dias frios do inverno e responderem em termos de produtividade — seja em carne ou leite. Na região, segundo a Emater, o cenário é de transição climática, marcado pela chegada do frio intenso, geadas e pouca luminosidade.

Esse panorama climático reduziu drasticamente o rebrote e a qualidade dos campos nativos, que começam a queimar e a perder valor nutricional, embora ainda garantam oferta razoável de forragem em locais específicos. Como reflexo, o gado em geral começa a sentir os efeitos do inverno, registrando alguma perda de condição corporal em propriedades onde as pastagens cultivadas ainda não atingiram o ponto de pastejo. Nas áreas onde o plantio foi precoce ou há integração lavoura-pecuária, os animais já utilizam restevas de soja e arroz ou pastagens de inverno bem desenvolvidas, informa a Emater.

Tradicionalmente, nesses sistemas, quando o frio chega o gado ainda ocupa o campo nativo ou áreas de pastagem de verão, que já estão em final de ciclo e, principalmente, nas restevas de arroz. De acordo com o pesquisador da Embrapa Clima Temperado, Jorge Schafhauser, estas áreas oferecem uma quantidade maior de biomassa. “Para facilitar a implantação das pastagens de inverno é interessante retirar uma parte desta palha do arroz e, por isso é colocado o gado na resteva”, explica. Schafhauser é zootecnista, especialista na área de sistemas de produção de bovinos, manejo e nutrição de ruminantes, e integração lavoura-pecuária. Atua na Estação Experimental Terras Baixas (EETB) da Embrapa Clima Temperado.

Pecuaristas encontram dificuldade para alimentar o gado

Apesar disso, a resteva do arroz não oferece um suporte nutricional muito bom, porque com o caminhar do gado, a palha vai sujando de barro, o que limita a atratividade para o animal. “Uma prática interessante, mas pouco utilizada é de enfardar esta palha para usar nos períodos mais críticos, lá em julho e agosto, final do inverno”, sugere o pesquisador. Segundo ele, além de retirar o excesso de palha que poderia atrapalhar a implantação da pastagem, o enfardamento da palha vira reserva para períodos mais críticos”, diz.

Ele observa, no entanto, que a palha do arroz enfardada ao ser oferecida ao animal deve ocorrer junto com uma fonte de proteína, como o sal mineral proteinado, uma mistura com proteína verdadeira, ureia e um pouco de carboidrato para equilibrar, ressalta. “Misturas comerciais como o sal proteinado complementam deficiências desta palha de arroz e que dificultam a digestão destes materiais”, acrescenta.

Schafhauser observa que neste outono, o que está retardando um pouco o desenvolvimento das pastagens, muito mais do que o frio, é a falta de chuvas. “Nós tivemos, desde o final do verão uma precipitação pluviométrica abaixo do ideal e, principalmente agora no outono, ela está ainda mais baixa”, diz. Isto também acabou prejudicando um pouco o final do ciclo das pastagens cultivadas de verão. “Com este frio de maio, estas pastagens já entram em senescência, elas começam a amarelar e a perder o potencial de crescimento, o que já é esperado”, lembra.

Em relação à lavoura de soja, a integração lavoura-pecuária é facilitada, porque permite que as pastagens de inverno, principalmente, azevém e outras gramíneas, sejam semeadas antes da colheita do grão, “na caída da folha”, como pontua o zootecnista. “Quando a soja começa a amarelar e perder as folhas, pode-se semear, com trator ou aviação agrícola em áreas maiores”, exemplifica. Enquanto a soja amadurece e se apronta para ser colhida, a pastagem já inicia o seu crescimento o que pode antecipar o pastejo em até 30 dias, observa.

O pesquisador explica que o período mais crítico para a alimentação do rebanho bovino na região, o chamado vazio forrageiro de outono, compreende normalmente os meses de abril, maio e junho. “De julho em diante, as pastagens já têm um pico bom de crescimento, mas esse período precisa de atenção, seja com a implantação de áreas mais cedo ou com pequenas áreas de culturas perenes de verão, que podem ser diferidas e preparadas para fornecer forragem neste período”, salienta. Neste caso, ele indica os capins elefante, anão, BRS Curumi ou BRS Capiaçu, ou ainda, gramíneas como Pânico ou Braquiárias, desde que manejadas para este fim.

Geadas e baixa luminosidade marcam a transição para o inverno e afetam o desenvolvimento das pastagens na região Sul. (Foto: Divulgação)

Uso de grãos para fortalecer o pasto

Uma outra alternativa que a Embrapa vem fomentando nas terras baixas são as cultivares de trigo e de triticale, indicadas como de duplo propósito. “Elas podem ser pastejadas no início do ciclo e lá por julho/agosto, serem diferidas para a colheita de grãos”, afirma. Segundo o pesquisador, estes materiais são interessantes para fazer o forrageiro na região, justamente por ser implantados cedo e terem vigor de crescimento no outono, permitindo a produção de forragem neste período mais crítico do vazio forrageiro de outono.

“Esses materiais podem ser implantados no final de fevereiro e em 30 a 40 dias já fornecem forragem para os animais”, observa. Segundo ele, o pico de produção desta forragem coincide com o vazio forrageiro de outono. De julho em diante, quando as pastagens de azevém têm seu pico de crescimento, estes materiais podem ser destinados à colheita de grãos ou ainda para confecção de silagem, de planta inteira com grão cheio.

Ele destaca que para a utilização desses materiais de trigo, nas terras baixas, é preciso melhorar a drenagem “Esta melhoria pode ser feita através do sistema de sulco camalhão, com micro camalhão ou camalhão de base larga, ou até mesmo o valeteamento das áreas”, evidencia. Ele frisa, também, que ainda há um diferencial no uso desses trigos em áreas de soja. “A soja se desenvolve melhor e isso pode ser pelo sistema radicular do trigo, que é mais profundo e acaba formando micro-canais, melhoram a aeração e penetração da água no solo”, expõe.

Cultivares de aveia estão entre as alternativas utilizadas para garantir forragem durante o vazio forrageiro de outono e inverno. (Foto: Elisson Pauletti)

Já no caso do arroz, é cada vez mais utilizado pelos produtores o cultivo no inverno com o trevo persa, BRS Resteveiro, material que além de fazer uma cobertura do solo, como leguminosa incorpora nitrogênio, o que ajuda bastante no desenvolvimento do arroz e diminui a demanda por ureia.

Entre outros materiais indicados pela pesquisa para o estabelecimento de pastagens de inverno, na integração com arroz e soja, ele cita os azevéns BRS Ponteio, BRS Estações e BRS Integração. “Além dos materiais perenes de verão (BRS Curumi e BRS Capiaçu) que podem ser manejados nas propriedades em pequenas áreas”, declara. Ele cita ainda, os materiais de Aveia Branca e Aveia Preta, bastante utilizados na região, como as BRS Neblina e 139. “Além disso, temos as leguminosas, como o trevo branco, trevo vermelho, trevo persa materiais BRS desenvolvidos pela Embrapa, todos eles recomendados na sucessão com arroz e soja”, completa.

Não há diferença entre forrageiras para gado de leite ou corte, afirma o pesquisador. “O que se tem é o manejo mudar um pouco, em função do tipo de animal que se está trabalhando”, esclarece. De acordo com o zootecnista, qualquer espécie animal demanda forragem de boa qualidade e em quantidade suficiente, sem muita distinção. A diferença básica da vaca de leite e a de corte é que a de leite precisa comer bem todos os dias e a de corte tolera pequenos períodos de oscilação em termos de qualidade alimentar. “As duas respondem bem na medida em que forem bem alimentadas”, finaliza.