Uruguaio fala da vida que leva ao trabalhar desde a adolescência nos semáforos

Desde os 16 anos sobrevivendo com o que ganha nos sinais, Emiliano Ríos tem pensamentos e visões peculiares sobre o mundo, pessoas e fé. (Foto: Nael Rosa/JTR)

É comum eles serem vistos nos semáforos em todo o Brasil, aproveitando no máximo 60 segundos em que o sinal permanece fechado para demonstrar a quem está ao volante, suas habilidades, na grande maioria das vezes com malabares. Geralmente, o visual de todos é exótico, chama atenção tanto quanto a curiosidade sobre os motivos pelos quais passam décadas, alguns a vida toda, tentando se sustentar dessa forma.

A reportagem do JTR buscou satisfazer a curiosidade daqueles que, em algum momento, já se questionaram: “o que os leva a fazer isso?”. O uruguaio Emiliano Rios tem 27 anos e, desde os 16, idade em que no seu país de origem é permitido a independência, tem pensamentos e visões peculiares sobre o mundo, pessoas e fé. Na verdade, ele não acredita em divindades nem em Deus.

Questionamos o artista, que atualmente expõe sua arte em Canguçu, sobre o porquê viver sem estabilidade nem formar uma família. Na expressão facial exposta ao ouvir a palavra “família”, percebemos que o tema não consta entre os seus preferidos. “Família? Não! Resolvi ganhar o mundo aos 16 anos, exatamente porque ficava trancado em casa o dia todo enquanto meus pais trabalhavam, impedido por eles até mesmo sair à rua. Então, se era para estar sozinho, melhor que fosse com liberdade, ganhando o mundo, viajando não somente por meu país, bem como pela Argentina, mas também visitando cidades de 19 estados brasileiros”, resume Rios.

Ele continua a demonstrar sua decepção com os genitores, o que lhe faz afirmar não ter apego à família. “Os visito a cada três anos, mas mantenho contato com ambos pelas redes sociais. Confesso: falo com ambos cada vez menos, pois quando converso com minha mãe, ela só me fala dos vizinhos que morreram e moravam em nossa rua. Já meu pai, só sabe reclamar. Melhor ficar distante”.

O uruguaio vai além, afirmando que, a partir dele, sua geração acabará, pois já sofreu tantas decepções, entre elas também com amigos, que o fez decidir não ter filhos. Entre os motivos alegados está o impedimento de continuar vagando pelo mundo, o que não abre mão. “Nem pensar! Criança dá muito trabalho. Se eu não tivesse saído de casa, teria me matado diante de tanta solidão. Me libertar foi a salvação para a mente, já que pensava com frequência em suicídio”.

Afirmando ser alguém desprovido não só de apegos, mas também de sentimentos necessários para se relacionar afetivamente com alguém. “Sou uma pessoa retraída, que não se abre muito. Não consigo demonstrar sentimentos por outros, o que herdei de meu pai e, neste sentido, sou até pior que ele”.

Sobre a falta de fé, o uruguaio é categórico ao falar de Deus. “Sou agnóstico. Ele nunca apareceu para mim, então…”. Ele dá como exemplo uma experiência que o decepcionou no interior de um templo evangélico. “Primeiro que o ser humano tá acabando com a Terra e, dentro disso, se tornou conveniente para ele falar em Deus, usá-lo. Mas isso acontece quase sempre quando a situação aperta. Há exceções? Com toda certeza! Mas tive decepções também quanto a essa parte, o que confirmou ainda mais minha opinião”. O malabarista continua: “ouço religiosos pregarem que Deus é a salvação, que devemos amar ao próximo. Mas muitos desses pregadores e pregadoras, a seguir passam ali, ao nosso lado, e ‘nem te vi’, apenas por sermos malabaristas. Uma vez, entrei em uma igreja, em Pelotas, me sentei e fiquei quietinho. Alguém que acredito, era o pastor, veio até mim e pediu que eu me retirasse, que ali eu não poderia ficar: ‘saia ou vou ter que chamar a polícia’, ele ameaçou. É ou não conveniente?”.

Mas nem tudo é descrença para o uruguaio. Ele relembra de uma experiência que acabou tocando seu coração. “Uma vez, ao chegar em um carro, uma mulher meu deu R$ 100. Minha alegria foi tanta que, emocionado, disse: ‘moça, moça, você me salvou’. Ela olhou para mim e, também emocionada, antes de ir embora, me corrigiu: ‘não, moço, foi tu quem me salvaste’.  Me sentei na calçada e me comecei a chorar. Até hoje não entendi. Sei lá…Talvez, ela estivesse passando por algo grave, como uma doença, por exemplo. Ou havia tido um dia ruim, ou até quem sabe não estava pensando em suicídio. Não sei…”.

Para finalizar, perguntamos como os artistas de sinal conseguem sobreviver com os trocados ganhos de quem por ali passa. O uruguaio ficou um tanto reticente, como quem tem algo que não pode ser revelado, mas respondeu: “na totalidade não posso falar. Meus colegas de sinal ficariam loucos comigo. Mas sim, é possível sobreviver. Se na cidade que eu chego tem um hotel baratinho, uns R$ 35 o pernoite, ok! Para comer, costumo ir aos restaurantes quando já estão fechando e barganho um valor pelo que sobrou da comida”.

“Por fim, como conquistei a cidadania brasileira, adquiri o direito e recebo o benefício de R$ 600 por mês, que o governo federal concede aos que não têm renda, o que poderá melhorar quando eu passar a executar, em breve, meu projeto: quero ser um youtuber, levando para as plataformas registros de minhas viagens por todos os países, Estado e cidades que eu passar”, concluiu.