
*Com informações da Assessoria de Imprensa
A qualidade da água dos rios da Mata Atlântica permanece em níveis preocupantes e sem melhora consistente, segundo relatório divulgado nesta quinta-feira (19) pela Fundação SOS Mata Atlântica. O estudo aponta redução no número de pontos com água considerada boa e reforça a necessidade de avanços no saneamento e na proteção das bacias hidrográficas.
O levantamento, intitulado “Retrato da Qualidade da Água nos Rios da Mata Atlântica”, analisou 1.209 amostras coletadas em 162 pontos de 128 rios, distribuídos em 86 municípios de 14 estados, entre janeiro e dezembro de 2025.
Os dados indicam que apenas cinco pontos (3,1%) apresentaram qualidade boa. A maior parte das amostras foi classificada como regular (78,4%), enquanto 15,4% foram consideradas ruins e 3,1%, péssimas. Nenhum dos pontos analisados atingiu nível de qualidade ótima.
Segundo Gustavo Veronesi, coordenador da causa Água Limpa da entidade, o cenário revela estagnação em um patamar já considerado crítico. “A predominância da qualidade regular revela que a maioria dos rios está sob pressão constante da poluição. Sem mudanças estruturais, o país continuará convivendo com rios degradados e com riscos crescentes para a população”, afirmou.
De acordo com a fundação, rios com qualidade boa ou ótima apresentam condições adequadas para abastecimento, produção de alimentos e equilíbrio da vida aquática. Já aqueles classificados como regulares indicam impactos ambientais que podem comprometer o uso para consumo e lazer. Nos níveis ruim e péssimo, a poluição atinge patamares críticos, afetando a biodiversidade e a saúde pública.
Queda na qualidade em relação ao ciclo anterior
Na comparação com o biênio 2024-2025, houve piora em parte dos indicadores. Entre 115 pontos monitorados nos dois períodos, o número de locais com qualidade boa caiu de nove para três. Os pontos classificados como regulares passaram de 89 para 91, enquanto os considerados ruins subiram de 15 para 16. Cinco permaneceram na categoria péssima.
Para a entidade, a principal causa da baixa qualidade da água é a deficiência no saneamento básico. “Ainda hoje, cerca de metade da população brasileira não tem acesso a esse serviço que deveria ser básico”, afirmou Veronesi.
Ele lembrou que o novo marco legal do saneamento estabelece metas de universalização até 2033, com atendimento de 99% da população com água potável e 90% com coleta e tratamento de esgoto. Segundo o especialista, porém, o avanço ocorre em ritmo insuficiente. “O relatório mostra esse descompasso entre o que a lei prevê e o que está sendo efetivamente entregue”, disse.
Degradação ambiental e impactos climáticos
A diretora de políticas públicas da Fundação SOS Mata Atlântica, Malu Ribeiro, afirmou que os dados refletem decisões políticas que impactam diretamente a conservação dos rios. Entre os fatores, ela cita atrasos no saneamento e pressões para flexibilização de normas ambientais.
A perda de cobertura vegetal, especialmente de matas ciliares, compromete a capacidade dos rios de reter sedimentos, filtrar poluentes e regular o fluxo de água. Eventos climáticos extremos, como estiagens prolongadas e chuvas intensas, também agravam o problema ao alterar o funcionamento das bacias hidrográficas.
“Fragilizar a legislação ambiental significa também fragilizar a segurança hídrica do país”, afirmou Malu. Ela acrescentou que soluções estruturais exigem políticas públicas integradas e planejamento de longo prazo. “A privatização de companhias de saneamento não pode substituir ações coordenadas que reconheçam o acesso à água como um direito”, disse.



