
Por: Álvaro Guimarães, Daniela Alves, Julia Barcelos e Lylian Santos
Desde que multidões de mulheres tomaram as ruas de grandes cidades ao redor do mundo no início do século 20 para protestar contra as más condições de trabalho, a luta por igualdade de direitos e equidade não deixou de ser perseguida pelos movimentos de defesa dos direitos das mulheres no Brasil e no mundo. Mais de um século depois, a busca pelo fim de todas as formas de assédio, por salários equivalentes aos dos homens e mais espaços de liderança ainda persiste. Em Pelotas, a maior cidade do sul do Estado, o cenário é, conforme especialistas, ainda injusto e desafiador.
Dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), disponibilizados pelo Data MPE Sebrae, indicam existir 76,5 mil trabalhadores cadastrados em Pelotas, sendo que deste total 47,3% são mulheres. A mesma base de dados, relativa a 2022, aponta que a remuneração média das mulheres é 10% menor que a dos homens.
Para a socióloga Elis Radmann, do Instituto de Pesquisa e Opinião (IPO), a desigualdade salarial é apenas um dos desafios enfrentados pelas mulheres no mercado de trabalho. “As mulheres ganham menos do que os homens, mesmo realizando os mesmos trabalhos. Isso ainda é muito forte e vai afetar, principalmente, aquelas profissões informais”, diz.
Segundo a socióloga, a sub-representação feminina em cargos de liderança é visível em todos os setores e embora se tenham avanços pontuais – como a eleição de uma prefeita e, mais recentemente, de uma vice-prefeita e de vereadoras mulheres – a realidade mostra que as mulheres estão, na maior parte das vezes, apartadas dos espaços de decisão e comando, como por exemplo nas entidades de classe da cidade, todas presididas por homens. Essa concentração, na opinião de Elis, limita as oportunidades de ascensão profissional e reforça um desequilíbrio estrutural que precisa ser superado.
Nesse contexto, a secretária municipal de Desenvolvimento Econômico, Paula Cardoso, enfatiza a importância do Dia Internacional da Mulher como um momento de reflexão sobre os avanços e obstáculos que marcam a inserção feminina na economia local. “Infelizmente, por mais que esse novo governo tenha colocado muitas mulheres em cargos de liderança, ainda somos um número reduzido. Além disso, setores tradicionalmente masculinos seguem sendo um desafio para a inclusão feminina, exigindo políticas públicas e empresariais que promovam equidade e oportunidades justas. A valorização da mulher no ambiente profissional não é apenas uma questão de justiça social, mas também um fator essencial para o desenvolvimento econômico e inovação do município”, defende.
Família e trabalho, o grande desafio das mulheres
Elis enfatiza que um dos principais desafios das mulheres é conseguir conciliar a vida profissional com as responsabilidades pessoais, pois são as mulheres, tradicionalmente, quem assumem a maior parte dos cuidados com a família. “Elas têm mais responsabilidades domésticas, elas têm os cuidados com os filhos e é a mulher que cuida da saúde da família. A mulher também cuida mais da sua saúde, então, precisa ir mais ao médico. Então, muitas vezes, ela vai estar mais ausente do trabalho em comparação com o homem”, afirma.
Locais de trabalho onde elogios excessivamente pessoais ou toques inadequados são tolerados refletem a manutenção de uma cultura que desvaloriza a competência profissional das mulheres. De acordo com Elis, essas atitudes, além de desrespeitosas, reforçam barreiras que dificultam a plena inserção feminina no mercado de trabalho.
Mulheres pretas e de periferia sofrem mais
Para além das dificuldades de gênero, Elis afirma ser fundamental fazer um recorte racial, pois as pesquisas feitas pelo IPO apontam que mulheres negras, moradoras da periferia da cidade são as mais vulneráveis e as que mais encontram dificuldades em se inserir no mercado. “A mulher negra é mais propensa à vulnerabilidade social, com menor grau de instrução, menores anos de estudo, ela fica muito mais fragilizada neste processo. Pelotas está em um momento ímpar da sua história com a vice-prefeita Daniela Brizolara (PSOL), que é uma mulher negra, mas, mesmo assim, está muito aquém do que seria aceitável em termos de proporção. O que a sociedade precisa pensar é como qualificar e capacitar estas mulheres negras para o mercado de trabalho, porque elas têm um déficit maior do que as demais. Esta seria a principal e mais urgente política pública que a cidade precisa desenvolver”, pontua.
Conforme a secretária Paula, a equipe da Secretaria de Desenvolvimento, composta por aproximadamente 70% de mulheres, trabalha na implementação de ações voltadas ao empreendedorismo e à qualificação feminina, com olhar para as mulheres de periferia. Entre as iniciativas destacadas pela secretária estão os programas “Movimenta Elas” – que mapeia mulheres em situação de vulnerabilidade para oferecer qualificação empreendedora – e o “Mulheres Mil”, desenvolvido em parceria com o IFSul e o Ministério da Educação na Colônia Z3, que oferece cursos para eletricista de baixa tensão e artesanato em biojoias, ampliando as oportunidades para jovens e mulheres em condições desfavorecidas.
Além disso, Paula salienta que, atualmente, 63% dos beneficiários do programa de microcrédito com juro zero mantido pela Prefeitura são mulheres.
Apesar das dificuldades, há avanços
Os estudos recentes do IPO mostram alguns avanços significativos na pauta, como o aumento da participação feminina em áreas estratégicas da economia. “O grau de participação das mulheres, em vários indicadores, tem dobrado e podemos reconhecer que existe um aumento da participação, mas que ela ainda está muito aquém do que deveria”, pondera.
O aumento de políticas e programas de igualdade de gênero dentro das empresas é apontado por Elis como fundamental para que seja possível alterar o panorama atual.
Mulher, mãe e policial: Camila Carvalho supera desafios e conquista sonho

Formada em Letras e Direito, Camila Carvalho, de 46 anos, sempre foi encantada pelo Direito Penal. “Eu gostava de acompanhar o julgamento do Tribunal do Júri e participava de pesquisa científica na área”, conta. No entanto, por questões pessoais e financeiras, começou trabalhando como professora de Inglês. Depois de alguns anos, decidiu largar a profissão de professora. Nesse meio tempo, cursou Direito, prestou o exame para a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e advogou na área trabalhista. Após alguns anos, ela decide seguir um sonho antigo de trabalhar diretamente com a investigação de crimes. “Foi, então, que prestei concurso para Polícia Civil e ingressei na carreira em 2014”, comenta.
Relembrando o início da carreira como policial civil, Camila afirma que o maior desafio nesta jornada foi participar da Academia da Polícia Civil (Acadepol/RS), um curso preparatório para o ingresso ao cargo com duração de seis meses, em Porto Alegre.
“Naquela época, eu tinha duas filhas pequenas morando em Pelotas e ficar afastada delas durante a semana foi o maior desafio para mim”, relata.
Atualmente, Camila é policial civil na Delegacia de Capão do Leão e garante que são muitos os desafios enfrentados ao longo da carreira. Falando sobre situações envolvendo o machismo em uma profissão predominantemente masculina, a policial civil afirma que esse preconceito ainda está muito enraizado na sociedade e as mulheres têm que estar sempre lutando por seu espaço nesse setor. Isso porque, segundo Camila, o público feminino ainda é visto por muitos como apenas para realizar atividades burocráticas na instituição. “Nós precisamos provar constantemente, todos os dias, que sabemos trabalhar, que somos capazes. É como se todos os dias existisse uma nova luta a travar em prol de nossa sobrevivência e dignidade”, salienta.
Felizmente, a policial civil conta que encontrou colegas que acreditaram em seu potencial.
“Tive a sorte de conviver com alguns homens policiais que acreditaram em mim, que confiaram no meu trabalho e não tinham ‘medo de sair comigo para rua’. Também tive o privilégio de trabalhar com mulheres policiais incentivadoras de outras mulheres. E essas pessoas fizeram toda a diferença na minha caminhada!”, garante.
Quando perguntada sobre qual mensagem de incentivo deixaria para outras mulheres, especialmente àquelas que sonham em seguir a carreira policial, Camila pede para não abandonarem seus sonhos. “Não acreditem em quem diga que isso ou aquilo não é para você, não se diminuam para caber em um padrão imposto por terceiros. Não há nada melhor na vida que estarmos exatamente naquele lugar que parece que foi feito na medida para gente!”, concluiu.
A força necessária para nunca desistir dos seus sonhos

Incentivando a busca pelos sonhos e não permitindo que eles sejam apagados pela vida adulta, a pelotense Maristela Corrêa, de 50 anos, não se deixa abalar pelas dificuldades da vida e nem permite que aquelas ao seu redor desistam de seus objetivos.
Hoje, dona de uma academia – que tem principal foco no público feminino -, Maristela é um exemplo de mulher que precisou se adaptar ao cenário em que vivia. Mãe de três filhos, o casamento aconteceu ainda na juventude e o sonho de dar aulas e ensinar, algo que vivia em seu coração desde sempre, precisou ser deixado de lado em prol da construção da família ao lado do marido.
A “virada de vida”, conforme descrito pela empreendedora, aconteceu no ano de 2016, quando o mais velho dos filhos ingressou na faculdade e incentivou os planos que a mãe tinha de seguir com os estudos. “É um lugar humilde, é um lugar pequeno, mas é um lugar com muita luta […] O meu amor é tão grande a isso, que eu não sei te explicar. É algo que completa alguém que, em algum momento, morreu”, destaca.
Mostrando a garra de quem corre atrás daquilo que sonha, a empreendedora e, hoje, estudante de Educação Física pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) conta que já exerceu funções tanto de cabeleireira quanto de pedreira para conseguir arcar com as despesas de casa nos momentos em que mais foram necessários.
Parte de um cenário composto majoritariamente por homens e onde a força feminina é frequentemente subestimada, Maristela relata também que nasceria mulher outras 10 vezes “porque eu não sei te dizer de onde sai tanta força para não desistir”.
Enfatizando um ensino de incentivo com todos aqueles que passam pela academia, principalmente as mulheres, Maristela conta que teve sua primeira experiência com uma academia própria ao alugar o espaço de uma igreja, tendo feito a reforma de toda a estrutura do local para fornecer o atendimento que sonhava em entregar. Na época, o empreendimento ficou fechado por conta da pandemia de Covid-19, momento em que a mulher percebeu o impacto real que tinha na vida de outras, que ao se reunirem, auxiliaram no pagamento de contas do local. “Eu digo para elas: ‘não morram e não deixem ninguém matar vocês, sejam mais fortes do que tudo o que acontecer na vida de vocês’”, pontuou.
A arte como caminho para a autodescoberta e a liberdade

A artista Isabelle Domingues, de 41 anos, foi uma das primeiras mulheres transexuais a se formar na UFPel e está na quarta graduação, desta vez, no curso de Música Popular Brasileira, no qual pretende iniciar uma trajetória musical. Para a universitária, algo intrínseco em sua personalidade é sempre se permitir fazer coisas que tem vontade, buscar pela felicidade e fazer coisas pelas quais realmente esteja apaixonada.
Viver como mulher em uma sociedade patriarcal não é fácil e a realidade é ainda mais dura com as mulheres trans, que muitas vezes são agredidas por assumirem viver como elas mesmas. “Celebrar o Dia das Mulheres significa, sobretudo, perceber que ser mulher é muito mais do que um padrão de beleza ou os papéis sexuais construídos socialmente e relegados aos sexos. É muito mais do que um corpo ‘ideal’ e todos os padrões estéticos nos quais as mulheres são aprisionadas. Ser mulher, pra mim, hoje, significa celebrar a imensidão, a singularidade de cada mulher, a diversidade do feminino, a liberdade de ser, de se pertencer, se reinventar. Confiar no seu próprio poder, no seu próprio talento, na sua essência, na sua capacidade de conquistar tudo que possa desejar, e reescrever a sua própria história.”, explica.
Élle, como também é chamada, afirma que sempre se sentiu naturalmente feminina. “Para uma adolescente dos anos 90, não havia muita informação sobre o assunto transgeneridade. Eu sabia, dentro de mim, que não era um menino, mas também sabia que não era gay. Eu me sentia mulher, tinha essa certeza!”.
Com o passar do tempo, a insatisfação e inadequação só foi crescendo para ela e seu escape foi a arte. “No teatro, eu podia ser quem eu queria e esse era o alento que eu precisava. Na pintura, eu desenhava meu próprio mundo. A arte me salvou de todas as formas”, conclui.
Além de suas formações, um dos momentos mais marcantes de sua trajetória foi através de um grupo de apoio às pessoas trans em Porto Alegre, onde Isabelle realizou a cirurgia de readequação sexual e teve seu “novo nascimento”. Agora, comemora seus dois aniversários. “Quando eu me olho no espelho e vejo quem eu sempre quis ser na vida, não tem nada mais gratificante. É como eu sempre digo, eu sou a minha maior conquista, eu sou a minha própria obra de arte e sou realmente, porque cada centímetro do meu corpo é uma conquista, é uma vitória, é uma celebração. Hoje, eu estou diante do espelho e vejo quem eu sempre quis ser, enxergo a Isabelle que sempre existiu dentro de mim, mas que até então as pessoas não viam concretamente”, explica.
Élle destaca que o mais importante é a mulher ter a certeza do seu potencial e buscar seu lugar no mundo “Ela só não deve desistir, ela deve continuar, levantar a cabeça, estude, se aperfeiçoe, ocupe esses espaços, busque sempre o seu melhor, ser o seu melhor e lute por isso. Lute, o caminho pode ser árduo, mas ele existe, ele te leva a algum lugar e esse lugar é o momento da sua vida. Satisfação, da felicidade, da alegria, sobretudo de ser quem é, valorizando a própria história e celebrando as próprias conquistas. Nós queremos ter as mesmas oportunidades, nós não queremos viver num mundo taxativo e preconceituoso onde as pessoas mesmo antes de nos conhecerem já nos condenam. Então, eu acredito que o mais importante mesmo seja ter mais oportunidades no mercado de trabalho ou em espaços diferentes”, finaliza.
Do samba ao Executivo: Daniela Brizolara tem trajetória de luta, cultura e representatividade

A vice-prefeita de Pelotas, Daniela Brizolara (PSOL), de 53 anos, é reconhecida por diversas profissões e ações além da política, entre elas, cantora, compositora, locutora e professora de Artes com habilitação em Música, graduada pela UFPel. Apesar de ter carreira musical reconhecida nos palcos da cidade e região, cantando samba e MPB, também foi presidente do Conselho Municipal de Cultura e é coordenadora do Emancipa Movimento Social de Educação Popular.
A musicista foi a terceira mulher a assumir o cargo mais alto na Prefeitura de Pelotas e a primeira mulher negra. Antes dela, a presidente da Câmara de Vereadores, Diosma Martinez Nunes (PP), ocupou a cadeira, quando o prefeito Adolfo Antonio Fetter (PP) se licenciou para concorrer à reeleição. E, a partir de 2013, Paula Mascarenhas (PSDB) como vice-prefeita ocupou a vaga, interinamente, algumas vezes e, em 2016, foi eleita prefeita, exercendo o cargo por dois mandatos.
Na música, Daniela e sua dupla Dena se destacaram e, de acordo com pesquisas, foram as primeiras mulheres a cantar samba de raiz à frente de um grupo na região. “Poder cantar samba não é só um momento de diversão para mim, é um momento de muita responsabilidade, porque outras mulheres me antecederam para abrir espaço para que eu esteja nesse meio, que ainda é muito masculino e machista, que às vezes não reconhece as mulheres sambistas. […] O meu trabalho no samba, ele tem o compromisso de também fortalecer essas mulheres”, comenta.
Para a gestora, a representatividade precisa ser feita com responsabilidade e também demanda ações que devem contrariar a questão que quando há uma mulher ou uma mulher e negra em determinado espaço é apenas pra cumprir uma cota. “Todos nós somos competentes, somos capazes, junto ao Executivo, fazermos a diferença, irmos buscar as políticas públicas para todos”, declara.
A vice-prefeita reafirma que sua administração será para todos. “Quando eu penso no que eu posso colaborar através do governo, junto com o meu querido amigo Fernando Marroni (PT), uma delas é fazermos com que as políticas públicas cheguem pra todos, é fazer com que a nossa cidade, pelo menos, seja uma cidade acolhedora e possa ser reconstruída. […] Precisamos de oportunidades, oportunidades pra termos uma educação de qualidade, oportunidades pra vermos as possibilidades que a educação nos traz, porque a saída dos nossos problemas enquanto futuro é a valorização da educação em termos, pra todos, uma educação com qualidade”, afirma.
Para finalizar, Daniela deixa uma mensagem a todas as mulheres. “Nós sempre temos momentos de luta e quando nós vencemos essas lutas, estamos sempre como guardiãs desses momentos, que são a defesa dos nossos direitos de estarmos em todos os espaços que nós queremos estar e podemos estar. Então, nesse oito de março, a minha mensagem para as mulheres é dizer da importância de estarmos juntos, da importância de não largarmos a mão uma da outra, porque nós somos importantes para a nossa sociedade, nós somos importantes nas nossas comunidades e nós somos importantes para a construção de uma sociedade mais justa e igualitária para todas e todos”, reforçou a gestora.
Resiliência de quem teve que ser mãe solo

A pelotense, Andreia Domingues, de 43 anos, tem uma existência de homenagem à força, coragem e resiliência que se assemelha a de tantas outras mulheres que tiveram gestações na juventude. Mãe de Joice, de 28, e Bruno, de 26, ela viveu experiências que retratam a garra e resiliência necessárias para sair de um ambiente opressor, e que hoje se transformaram, acima de tudo, no amor e no desejo de um futuro melhor para seus filhos.
Andreia foi mãe de primeira viagem aos 15 anos e, conforme a exigência dos pais, se casou com o genitor da criança. Assim, aos 17 anos, ela foi mãe novamente. No entanto, os primeiros anos de maternidade não foram fáceis. “Ele era uma pessoa de difícil convivência. Estava sempre colocando meus filhos de castigo. Seria a educação que seus pais lhe deram, só que estávamos vivendo em outros tempos. Tempos que ele deveria dar atenção, amor e educação”, conta.
Segundo Andreia, os castigos que o ex-marido colocava as crianças pequenas eram severos, variando desde ficar de pé em frente à parede até ajoelhar sobre tampas de garrafas de metal.
Tendo vivido no casamento por sete anos, mas reconhecendo, apesar de jovem, que aquele não era o tipo de educação ou realidade na qual queria criar seus filhos, Andreia revela que o momento de intervenção aconteceu quando o ex-marido tentou bater nas crianças. “Quando ele levantou a mão para bater nos meus filhos, eu me meti na frente e disse que antes de encostar neles, teria que bater em mim”, afirma.
Desta forma, Andreia, com coragem e determinação, se mudou para a casa dos pais, levando consigo apenas algumas roupas. Na época, Joice tinha sete anos e Bruno cinco. A família se instalou em um dos quartos da casa e, tempos depois, o divórcio oficialmente aconteceu.
Não permitindo que a situação a afetasse e disposta a garantir uma vida digna para as crianças, Andreia conseguiu construir uma casa pré-fabricada no terreno dos pais, trabalhando em farmácias, casas de família, padarias, confeitarias, no shopping e em eventos para garantir o sustento da casa. “Às vezes, eles ficavam na creche, outras com minha mãe, quando ela ainda estava viva, me ajudou bastante. E quando eu saía, deixava comida pronta e lanches para somente esquentar no micro-ondas. Não foram momentos fáceis, mas sempre contamos com nós [sic] três para tudo”, destaca.
Ao longo dos anos, Andreia enfrentou dificuldades financeiras, desafios na criação dos filhos e a constante luta por melhores condições de vida. O apoio do governo, como o auxílio para compra de alimentos, foi importante, mas a mulher enfatiza que o sistema precisa de mais políticas públicas voltadas para mães solteiras, como mais vagas nas creches. “Eu penso que nada nessa vida é fácil, nada mesmo. Nunca foi. Nos vemos muitas vezes desamparadas, chateadas, pensando em largar tudo porque a carga é pesada, mas sempre temos que pensar que há outras vidas dependendo de nós. Então temos que seguir em frente, sermos fortes”, conclui.



