Muito além das limitações impostas pela sociedade

O pelotense Diego Lemos, de 39 anos, é praticante de diversos esportes. (Foto: Divulgação)

Estamos na Semana Nacional da Pessoa com Deficiência Intelectual e Múltipla, assinalada entre os dias 21 e 28, com o tema “É tempo de transformar conhecimento em ação”. A campanha anual é desenvolvida, desde 1963, pela Federação Nacional das Apaes (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais), neste mesmo período.

A data foi instituída pela Lei nº 13.585/2.017 e busca conscientizar a sociedade sobre a luta pelos direitos das pessoas com deficiência, além de divulgar conhecimento sobre as condições sociais dessa população, como meio de transformação da realidade e superação das barreiras que as impedem de participar coletivamente em igualdade de condições com as demais pessoas.

Coincidência ou não, na terça-feira (24), teve início a realização dos Jogos Paralimpícos de Tóquio, que se estendem até o dia 5 de setembro. O evento tem a participação de 253 atletas brasileiros que irão competir em 20 modalidades paralímpicas. A realização deste evento, desde 1960, leva à uma reflexão para que se lance olhar diferenciado ao atleta paralímpico.

O atleta pelotense Diego Ferreira Lemos, de 39 anos, não está competindo nestas paralimpíadas, mas sua história de vida certamente merece um pódio. Deficiente visual desde os 15 anos, quando perdeu a visão total, ele diz ter encontrado a felicidade através do esporte. Casado e pai de dois filhos, Lemos representou a seleção no Powerlifting, obtendo o quarto lugar no Mundial, em São Paulo, no ano de 2007, pratica judô, jiu-jítsu, futebol de salão e corrida de rua. Além disso, é bacharel em Direito, formado em 2018 e, recentemente, abriu uma empresa de alimentos.

Ele conta que, aos oito meses, os pais descobriram que ele tinha glaucoma (hipertensão ocular) e, após passar por cirurgia no Banco de Olhos de Porto Alegre, conseguiu recuperar apenas 14% de visão. Cresceu assim. Ele conta que, ao ingressar na escola regular, foi alvo de muito preconceito e bullying por parte dos colegas, que não entendiam o seu problema. Aos nove anos, iniciou na Escola Luís Braile, onde aprendeu a ler e escrever.

Aos 15 anos, tendo cursado apenas até a 6ª série, perdeu totalmente a visão, descoberta feita após uma queda, o que lhe tirou o chão e o fez ficar muito deprimido e desmotivado. Acompanhado pelo médico oftalmologista pelotense Nicolau Loeff, a quem classifica com um anjo, que lhe prestou todo o atendimento necessário, gratuitamente, conseguiu abrandar a doença, mas não a perda da visão. Neste período passou por diversas cirurgias e inúmeros tratamentos até conseguir se curar totalmente.

Mas ele conta que a superação e aceitação veio quando conheceu sua esposa Clarinei Endres Lemos, que lhe incentivou a lutar pelos seus objetivos e enfrentar o preconceito que existia, e que ainda existe, quando resolveu retomar os estudos, formando-se em Direito. “Quero, através da minha história de vida, mostrar a outros deficientes que eles podem ter um caminho de vida, tirá-los da zona de conforto e do preconceito e trazê-los para a rua, para lutar pelos seus objetivos e mostrar que eles são iguais a qualquer pessoa”, diz.

A partir da sua experiência, o atleta busca motivar outras pessoas a também buscarem uma trajetória de superação. Atualmente é vice-presidente da Associação dos Deficientes Físicos e Intelectuais de Pelotas (Asdefipel). Como diretor do Departamento de Esportes, em 2011, ajudou a criar a Equipe de Futebol de Cegos de Pelotas, que se prepara para disputar a série A do Campeonato Brasileiro, em outubro, em São Paulo. Seu novo desafio agora é o judô e jiujitsu e, também em São Paulo, no mês de dezembro, o atleta irá lutar no judô paralímpico. Ele conta que também já participou e venceu a Corrida São Silvestre e obteve vários campeonatos no atletismo.

De acordo com o Censo 2010, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), quase 46 milhões de brasileiros, cerca de 24% da população, declarou ter algum grau de dificuldade em pelo menos uma das habilidades investigadas (enxergar, ouvir, caminhar ou subir degraus), ou possuir deficiência mental/intelectual. Seguindo orientações internacionais, considerou-se “pessoa com deficiência” os indivíduos que responderam ter pelo menos muita dificuldade em uma ou mais questões. Em 2010, a deficiência visual estava presente em 3,4% da população brasileira, a deficiência motora em 2,3%; auditiva em 1,1%; e a mental/intelectual em 1,4%.

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