Pandemia motivou o encerramento de quase quatro em cada dez negócios no RS

Crise sanitária foi apontada como o principal motivo de fechamento dos negócios no RS, com 38%. (Foto: Rodrigo Chagas/Prefeitura de Pelotas)

A pandemia do coronavírus foi o principal motivo apontado para o fechamento de quase quatro em cada 10 negócios no Rio Grande do Sul. É o que aponta a pesquisa Global Entrepreneurship Monitor (GEM), realizada em 2020, pelo terceiro ano no estado. O impacto foi maior em empreendimentos conduzidos por mulheres, que registrou uma queda de 25% em relação à pesquisa anterior, de 2018. Para os homens, a redução foi de 2,4% no mesmo período.

A pesquisa é conduzida pelo Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade (IBQP), em parceria com o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE) RS e teve edições realizadas em 2016 e 2018 no estado. Realizada em 44 países, entrevistou duas mil pessoas no Rio Grande do Sul, de 18 a 64 anos, entre os meses de julho e outubro de 2020.

A taxa de descontinuidade dos negócios subiu de 3%, em 2018, para 7,5% em 2020. Deste número, 38% afirmaram que a pandemia foi o principal motivo, seguido por razões pessoais ou familiares, com 19,3%, e falta de lucratividade no negócio, com 13,2%. Os números demonstram, também, que 68% dos entrevistados declararam ter tido redução na renda familiar em decorrência da crise sanitária.

No mesmo período, no entanto, foi identificado que um em cada três gaúchos tem um negócio ou estava envolvido na criação de um, o que representa 2,7 milhões de pessoas no estado, 36,5% da população adulta. O número representa um crescimento de 42% em relação à primeira edição da pesquisa, em 2016. No Brasil, houve queda de 5% no mesmo período, acentuada ainda mais se considerado os anos de 2018, quando eram 52 milhões de brasileiros. Em 2020, o número foi de 44 milhões, patamar mais baixo do que o observado em 2016, quando eram 48 milhões. O índice gaúcho foi o segundo maior obtido na América Latina e Caribe, atrás somente da Guatemala, com 39,8%.

Neste sentido, outro tópico abordado pela pesquisa abrange a motivação para empreender. O mais citado no RS e no país foi “ganhar a vida porque os empregos são escassos”. “Esse [tópico] é, talvez, o mais cruel desse momento pandêmico que a gente viveu, porque ele tende a acelerar isso [empreendedorismo]”, afirma André Campos, gerente da área de Gestão Estratégica do Sebrae RS.

O segundo item mais citado pelos gaúchos neste tópico, no entanto, foi “para fazer diferença no mundo”, com 72%. “A gente pode dizer que o Rio Grande do Sul é um estado empreendedor mesmo. Ele se destaca em função disso”, disse.

Outras opções eram para “continuar uma tradição familiar”, que teve 30% no RS, e “construir grande riqueza/renda muito alta”, com 55%. Neste mesmo sentido, 51,6% dos gaúchos declararam conhecer ao menos uma pessoa que começou um novo negócio devido à pandemia.

Conduzida pelo IBQP e Sebrae RS, pesquisa foi realizada pela terceira vez no Rio Grande do Sul, com edições em 2018 e 2016. (Foto: Reprodução/Freepik)

Campos destaca a necessidade de remodelação de negócios durante o período pandêmico, no qual houve uma mudança no perfil de consumo, que passou a ser feito com mais frequência de forma online. “Todos nós conhecemos um estabelecimento que migrou para o digital. Esse movimento, parte dele, vai permanecer, porque as pessoas mudaram”.

Andréia Nascimento, da área de Gestão Estratégica do Sebrae, aponta que esse movimento já estava ocorrendo, mas teve uma aceleração por conta da pandemia. “Quem estava mais preparado, migrando para isso, conseguiu se refazer mais rapidamente”, disse.

Esta tendência também é captada por outra pesquisa, o “Monitoramento dos pequenos negócios”, realizada mensalmente, e que está na 16ª edição. Em setembro, 57% dos empresários apontaram que remodelaram as atividades após o início da pandemia. Deste grupo, 54% apontaram a adoção de ferramentas digitais para vendas e relacionamento com os clientes.

Mais negócios nas áreas de serviço ao consumidor
Nos dados da GEM, é possível observar que, entre os empreendedores iniciais, com até 3,5 anos de operação, quase metade (50,8%) estão nas áreas de serviços orientados para o consumidor, com 50,8%. Essa também é a principal área quando observados os negócios estabelecidos, com mais de 3,5 anos, cujo número foi de 34%. “Os serviços voltados para o consumidor final têm menores barreiras de entrada, precisam de um investimento um pouco menor”, disse Andreia, lembrando que essas áreas possuem, também, maior concorrência, e sofrem mais com oscilações.

Nesta linha, a pesquisa também identificou que a taxa dos investidores informais para negócios aumentou de 1,9%, em 2018, para 7,3%, em 2020, com familiares representando 51,7%. No RS, a estimativa é que sejam 546 mil, enquanto no país o número chega a mais de 9 milhões. Nesta categoria entram cônjuge, irmãos, filhos, pais e netos. Os segundos na lista são amigos ou vizinhos, com 32,6%. O valor médio foi de R$ 21,3 mil, com a mediana, menos suscetível a valores muito discrepantes, de cerca de R$ 5 mil. O máximo foi de R$ 500 mil, e o mínimo de R$ 300.

Crescem os empreendedores potenciais
Mesmo os que ainda não iniciaram, manifestam o desejo. O número de empreendedores potenciais, que agrega as pessoas que não estavam, em 2020, em nenhum estágio de atividade empreendedora, mas que desejam empreendedor nos próximos três anos, chegou a 2,2 milhões em 2020, representando 46,7%, quase o dobro dos 25% obtidos em 2020. Isto pode ser demonstrado, também, no sonho da população do estado, no qual 54,5% declarou ter o desejo de iniciar o próprio negócio, atrás somente de “viajar pelo Brasil”. Em 2018, este foi o quarto tópico mais citado.

Outro índice que teve um aumento ao longo das edições foi o de formalização que, em 2020, foi superior a média nacional, com 50,4% no RS e 44,2% no país. O número é maior do que o registrado em 2016, com 26%, e em 2018, quando foi de 31%. “No momento em que a pessoa se formaliza, surgem outras oportunidades para o negócio”, aponta Andreia.

Mulheres tiveram maior redução de negócios

As mulheres ainda são minoria entre os empreendedores nascentes, novos e estabelecidos. A pesquisa demonstra que a proporção é menor neste último, que leva em conta aqueles com mais de 3,5 anos de operação, onde o grupo representa 33,8%, ou 363 mil, contra 66,2% dos homens. Entre os novos, aqueles entre 3 meses a 3,5 anos, o público feminino é de 42,6%, ou 406 mil, e entre os nascentes, aqueles com negócio próprio com até 3 meses, ou que realizaram alguma ação visando ter um negócio próprio nos últimos 12 meses, somam 46,6%, ou 336 mil.

Elas também foram as mais impactadas pela crise sanitária, com queda de 25% nos empreendimentos estabelecidos conduzidos por mulheres, em comparação com a pesquisa anterior, de 2018. Entre os homens, o número foi de 2,4%. Entre os principais desafios apontados na pesquisa são citados a múltipla jornada, o sexismo, a falta de incentivo familiar e limitações de crédito.

A principal atividade conduzida pelas mulheres são serviços de catering, bufê e outros serviços de comida preparada, com 14%, seguido por comércio varejista de artigos de vestuário e acessório.

Opinião de especialistas
A GEM também ouviu 39 especialistas vinculados ao ecossistema empreendedor no Rio Grande do Sul. Eles apontaram, entre os fatores favoráveis para empreender no estado, “pesquisa e desenvolvimento”, com 45,7%; “programas governamentais” e “educação e capacitação”, ambos com 37,1%. Entre os fatores limitantes estão “políticas governamentais”, com 81,1%, “apoio financeiro”, com 32,4%, e “educação e capacitação”, com 29,7%.

“As políticas governamentais não são suficientes, em número e em qualidade para suportar e se transforma em um fator limitante”, destaca Campos.

Os especialistas também forneceram recomendações para a melhoria da atividade. Na área de políticas governamentais e tributárias são citados temas como a promoção de competitividade tributária, ações e programas para fomento ao empreendedorismo e inovação, e políticas de incentivo à internacionalização e à aproximação com países fronteiriços.

Na educação, estão orientações como o fortalecimento da cultura empreendedora, com participação das Secretarias de Educação, inserção de empreendedorismo de forma transdisciplinar na educação formal de crianças e jovens e capacitação de professores em empreendedorismo.

Também são citados o apoio com programas de acesso e financiamento à tecnologia e inovação, desburocratização e digitalização de processos, e o estímulo e aumento do investimento em pesquisa, desenvolvimento e inovação, além de ciência, tecnologia e inovação em universidades gaúchas.

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