Uma defesa que não precisaria ser feita…

O lançamento da encíclica Fratelli Tutti, recentemente, recolocou o papa Francisco no centro das discussões. Em um documento pastoral de fácil compreensão, apela para a fraternidade universal e a amizade social. O suficiente para que os críticos, até mesmo dentro da igreja católica, lançassem farpas sobre o pensamento de um pastor, que, a exemplo de João XXIII, tem um olhar sobre o seu próprio rebanho, sem perder a noção da realidade social e espiritual em que vive a humanidade.

Em sala de aula ou discussões pela internet, quando pinçam um ou outro elemento e tentam fazer uma análise descontextualizada, sou cirúrgico: não há discussão se a pessoa, ao menos, não se der ao trabalho de ler material que está à disposição – impresso ou pelos meios eletrônicos. Se, em tempos não tão remotos, era difícil conhecer a íntegra do pensamento papal, hoje, está à disposição e fazer uma leitura preguiçosa, a partir de outros, é um desserviço e uma irresponsabilidade.

Quando católicos não se prestam para conhecer o que pensa o papa, grupos filosóficos ou religiosos o fazem e endossam o pensamento de Francisco. Caso de maçônicos que o elogiaram. Suficiente para ganhar a pecha de “documento maçom”. Não duvido que ficassem felizes de ter um papa escrevendo textos para suas discussões filosóficas. Mas quem disse isto vai ter trabalho se outros grupos o elogiarem. E terão que chamar de “documento espírita”, “budista”, “protestante”, “umbandista” e assim por diante…

Em um outro ambiente, comentou-se que as críticas são porque o “papa deixa a bola quicando”. Expressão do futebol para dizer que deu oportunidade para o adversário aproveitar da situação e levar vantagem. Há sete anos à frente da igreja, Francisco não foi “convertido” no que muitos queriam: um intelectual, como tivemos Bento XVI, ou político, como João Paulo II. Marcantes e respeitáveis, mas que, na essência, não tinham este olhar sobre a periferia do mundo, para muito além dos muros do Vaticano.

Das muitas maldades que circulam, especialmente pelas redes sociais, está “o equívoco que foi a sua escolha”. Não sou teólogo, mas do pouco que entendo, um católico que pense ou diga algo assim está cometendo um grande pecado: Francisco foi eleito num conclave de cardeais. Para quem não lembra, eminentemente conservador… sob a ação do Espírito Santo! Então, quem duvida das atitudes tomadas pelo papa está duvidando do próprio Espírito Santo… sugerindo que poderia ter se enganado! Como assim?

Esta é uma defesa que não precisaria ser feita. Com honestidade e bom senso se percebe que Francisco não precisa flertar com filosofias como o marxismo, quando se tem a Doutrina Social da Igreja, a respeito da organização social, política e econômica, que embasou o pensamento de outros grupos. Em tempos de “achismos”, pensar dói ou cansa… mais difícil ainda é buscar uma sociedade em que sejamos “Fratelli tutti!”.

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