Um todo para se chamar de Rio Grande

Manoel Jesus, educador.

Passei dois anos sem, praticamente, sair de Pelotas. A pandemia tirou meu gosto por incursões a Porto Alegre, a fim de “um banho de cultura”, com uma agenda incluindo livrarias, shoppings, cinemas, teatros, visitas… e à serra, especialmente Caxias do Sul, onde tenho sobrinhos morando e trabalhando. O hiato foi suficiente para perceber as mudanças ocorridas, tanto no que se refere à BR 116, quanto ao fosso que existe entre o fato de que Pelotas e Rio Grande constituem o centro de um polo econômico que corre atrás do processo de industrialização que, por lá, já se distanciou.

Próximo de completar 10 anos, as obras da rodovia que liga à capital melhorou sensivelmente o trânsito. Ao menos, agora, se sabe que, em algum momento, desdobra-se em mais pistas e desafoga a procissão dos desesperançados que se aglomera atrás de um caminhão, por exemplo. Sem demérito a quem trabalha, mas sabendo que é um recurso que já deveria estar à disposição em sua integralidade e demanda, no mínimo, dois anos de trabalho para a conclusão. Incluindo a nova ponte junto a Porto Alegre que facilita quem passa por lá em direção à serra ou ao litoral norte.

Os problemas que a economia enfrenta no Brasil vitimaram amplos setores industriais, assim como de serviços. Mas há regiões, como a do vale do rio dos Sinos, que se renova, o que é demonstrado, nesta época do ano, pelo incremento das atividades que envolvem Natal e Ano Novo. Numa manhã de quinta-feira, percorri um shopping do centro de Canoas, com todos os seus espaços ocupados, assim como muitos quiosques pelos seus corredores, e serviços (como pista de patinação em seu interior), com muita gente circulando, especialmente no horário do meio-dia.

Há um outro clima na produção industrial. Saudosistas dizem que já foi melhor e os empresários mais novos apontam que, para quem perdeu os anéis ficaram os dedos, e é necessário pôr a mão na massa, investir e cicatrizar as feridas que causaram o afastamento sensível de uma parcela de consumidores da classe média baixa. Não existe a perspectiva do pleno emprego, mas se considera como vitória se um bom percentual da massa trabalhadora que hoje busca a fila das políticas sociais do governo possa, por si só, gerar a própria renda e administrar a economia de suas casas.

No entanto, os bons índices alcançados pela vacinação causam a impressão de que se superou a pandemia. Na Serra, narram história semelhante à que é contada a respeito de alemães, no caso, com relação a italianos… “O italiano não é teimoso, teimoso é quem teima com um italiano!” Acho que vale para outras etnias, inclusive para nós, com alguns resquícios dos portugueses. Percebe-se, em muitos lugares, descuidos com o uso da máscara, do álcool gel e distanciamento. Sem acender a luz vermelha de que esta fadiga dos cuidados pode ser a porta aberta para novos problemas.

As obras de infraestrutura não pararam. Mas não são o suficiente. As estradas estaduais e federais estão em melhores condições, o que é básico para atender às necessidades para as quais as diversas regiões, com suas características, inclusive étnicas, foram construindo seu suporte econômico, financeiro e cultural. Sem querer plagiar o governo do Estado, é preciso avançar. Circular por aí dá a nítida impressão de que ainda se trabalha com polos isolados, alguns até com conexões com o Mundo, mas que não encontraram seu lugar para fazer o todo que se chama Rio Grande do Sul.

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