Um quase tango

José Henrique Pires licenciado em Estudos Sociais pelo ICH-UFPel, especialista em Políticas Públicas pela Universidade de Salamanca, Espanha, jornalista e radialista. (Foto: Divulgação)

Houve um tempo, quando ocorria uma batalha importante, ser bastante comum a existência de uma tabela que estabelecia prêmios em dinheiro, a ser pago a combatentes que saíssem da refrega com despojos conquistados dos adversários.

Um clarim, uma espada de oficial, tudo isso valia bastante e ainda poderia garantir medalhas, sendo valorizadíssimas eventuais bandeiras arrancadas dos oponentes.

Quando tropas argentinas e brasileiras protagonizaram a maior batalha campal da América Latina – durou 12h e teve milhares de combatentes – nas cercanias da cidade de Rosário do Sul, os repu­blicanos comandados pelo general Alvear nominaram o evento de Batalha de Ituziangó e afirmaram que a venceram ante os imperiais brasileiros, comandados pelo Visconde de Barbacena, este cha­mando o evento de Batalha do Passo do Rosário e afirmando que não a perderam.

“Pero que si, pero que no” – desse sanguinário conflito de 20 de fevereiro de 1827, originaram-se as tratativas que resultaram no acordo assinado em agosto do mesmo ano, “descriando” a Província Cisplatina, brasileira, nascendo aí a República Oriental do Uruguai, totalmente independente.

Terminada aquela batalha, alguém da Argentina achou uma bolsa que alguém da banda marcial brasileira carregava, dentro da qual havia a partitura de um belo hino. Foi o que bastou para que aquele papel pautado chegasse a Buenos Aires como sendo da lavra de Dom Pedro I (não existe nenhuma evidência dessa autoria), que teria sido escrito com antecedência para enaltecer a vitória brasileira, caso tivessem os soldados do império o êxito almejado. O papel deve ter rendido medalha e verbas para o emissário do despojo.

Desde então, em todas as cerimônias oficiais das quais participa o Presidente da Argentina, toca-se a “Marcha de Ituziangó”, música que nossos hermanos insistem ser de autoria do Imperador brasi­leiro, mas que, em verdade, sabe-se apenas que estava na bolsa de um humilde músico que naqueles dias tocava naquelas bandas de Rosário do Sul. A música é bonita – a história rocambolesca – e pode ser ouvida no YouTube a qualquer momento ou na Argentina toda a vez que o Presidente chega para algum evento. De Rosário do Sul para a Casa Rosada.

*José Henrique Medeiros Pires é Licenciado em Estudos Sociais pelo ICH UFPel, Especialista em Políticas Públicas pela Universidade de Salamanca, Espanha e jornalista e radialista

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