Um galo, uma tartaruga e um cágado

José Henrique Pires licenciado em Estudos Sociais pelo ICH-UFPel, especialista em Políticas Públicas pela Universidade de Salamanca, Espanha, jornalista e radialista. (Foto: Divulgação)

Lá se vão muitos anos…

Fazendo uma seleção para a parte internacional do Dança-Sul, nos anos 90 do século passado, a equipe da qual eu fazia parte ficou bastante entusiasmada com um grupo argentino de dança contemporânea.

Havia adaptado uma coreografia francesa para a realidade latina. Vimos o vídeo que constava na inscrição para o Festival, lemos as razões do projeto e ficamos entusiasmados.
Na versão europeia, bailarinos e bailarinas dançavam num palco amplo, tendo no meio deles um enorme galo. Mansinho, caminhando lentamente e bicando farelos e milhos previamente espalhados pelo chão.

Na versão portenha, preferiram usar uma tartaruga, que se movia lentamente em meio à cena, permitindo performances mais vagarosas, quase em “slow motion”, possibilitando uma demonstração dançada, que pretendia ser uma denúncia sobre as demoras nas mudanças sociais que aquele corpo de baile entendia importantes – por meio da dança – para o público que assistiria ao espetáculo.

No papel estava ótimo e no vídeo funcionou, ao ponto de encorajar os que fizeram a escolha na comissão de seleção.

Era uma equipe de dança de tamanho médio e com muito esforço conseguiu sair de Buenos Aires e chegar em Pelotas a tempo de integrar o evento. Mas avisaram logo: não conseguiram passar com a tartaruga na aduana. Acostumada com eles, aquela bailarina inusitada foi deixada com um amigo na fronteira e seria resgatada na volta. Por questões sanitárias que desconheciam, não foi possível adentrar em território brasileiro com aquele quelônio já familiarizado com os tangos e as milongas.

E agora, como fazer?

Como é comum em festivais, sempre há um “faz tudo” a postos. Que leva alguém para o dentista quando o dente incomoda, que acha a comida certa para alguém com restrições, que resolve um problema inusitado de figurino.

Pois eles nos requisitaram uma tartaruga, de tamanho médio, com especificações várias. Não sabíamos como achar com as características e a rapidez que eles necessitavam.
No ensaio, resolveram o desfalque no elenco usando um tijolo, acertaram as luzes e o som, saíram a passear com os colegas de festival e a equipe de produção permaneceu com os cabelos em pé na busca da “tortuga” perfeita.

Não foi possível achar. Tartaruga naquelas dimensões nem pra remédio.

O “faz tudo” sugeriu: nessa situação urgente, com esse tamanho e tendo que ter carapaça, só consigo um cágado!

Sem outra alternativa, autorizado pelos argentinos que ouviram argumentos em portunhol, lá se foi o funcionário do festival ao laguinho da praça, onde achou um bicho com as medidas parecidas para quebrar o galho na apresentação de dança.

Colocou o cágado numa caixa e levou para o teatro. E seja o que Deus quiser…
Na hora da apresentação, casa cheia, entra um bailarino com as mãos levantadas, segurando o cágado pelo casco, este com pernas para cima; dá duas voltas e o deposita exatamente no meio do palco.

Aturdido com aquela situação tão nova, o animal ficou quieto por alguns momentos.

O bailado começou exatamente como o previsto, mas, em dado momento, o cágado esticou o pescoço e correu. O bailarino que havia entrado com ele nas mãos, improvisou. Fez uma bela pirueta, pegou o cágado e o virou de pernas para o ar. Obviamente, com a carapaça encostada no piso, o bichinho ficou onde estava e eles dançaram em volta mais alguns minutos. Refeitos da surpresa, viraram o cágado, que com as pernas novamente no chão, deu outra corridinha em direção às coxias e o bailarino deu outro pulo. Isso aconteceu mais umas duas vezes e ao final o público aplaudiu entusiasticamente a performance, admirados com aquele pequeno animal tão integrado à proposta coreográfica.

Na hora do jantar, enquanto o faz tudo devolvia o quelônio brasileiro ao laguinho, os argentinos só quiseram comentar o tamanho do sucesso que obtiveram e a perplexidade que os abateu durante a dança, diante das “tortugas brasileñas” que sabiam correr…
Não sabiam eles, nem nós, que as tartarugas são basicamente aquáticas e que os cágados são predominantemente terrestres, por isso elas lentas e eles rápidos.

Às vezes imagino que naquele grupo de quelônios que habita nossa Praça ainda está aquele que subiu ao palco do Sete de Abril naquele dia. Vivem mais que a gente.

E penso que – caso exista uma língua falada pelos cágados – não faltou oportunidade para ele contar aos seus colegas: Ali naquele teatro, já subi no palco e fiz muito sucesso.

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