Quatro cantos

Alguns problemas surgiam e, simplesmente, eu não mudava de lugar para encará-los. Ajo e reajo rápido, com frequência, mas deter­minadas situações me mobilizavam e me deixavam colada na cadeira. O máximo que conseguia era me reclinar um pouco, balançando o corpo, embalando pensamentos, e assim permanecia, por um período de tempo que se configurava demasiado longo para o meu gosto.

Essa postura me incomodava e perturbava. Tinha a impressão de que algo me prendia e impedia que eu focasse na linha de raciocínio de forma coerente.

Comentando sobre isso com uma amiga, ouvi uma frase simples e fantástica:” podes ficar parada, mas não imóvel. Procura mudar de lugar. Senta nos quatro cantos da sala. E observa os problemas sob ângulos diversos. Daí, faz o mesmo com o teu momento de conflito”.

Mudar o enfoque é proporcionar a oportunidade de várias saídas, de múltiplas soluções que se descortinam, que saem detrás do pano. Impossível engavetar problemas ou varrê-los para baixo do tapete. Ao menos, para mim, não funciona. E pior, ainda, é fingir que não existem. Nem pensar nessa hipótese. Problema é coisa de olho no olho. É cara e coragem. É assimilação.

E quando inexistem opções, a única opção é deixar o problema se solucionar por si mesmo.

Visto assim parece fácil. Porém, não deixa de ser angustiante bus­car respostas certas para o incerto da realidade no cotidiano de viver.

E pensar que tenho a mania de mudar os móveis de lugar. Faço tão naturalmente as modificações de objetos, colocando e recolo­cando aqui e ali, pelo mero prazer de reformular entornos que, talvez, me cansem, vistos sempre de um idêntico prisma. E, não obstante, me sentia incapaz e inepta de proceder de igual maneira com os inconvenientes acontecimentos que me desestruturavam. Parece um absurdo.

No entanto, ao trocar coisas de um lado para o outro, permito que o novo aconteça. Abro espaços, reorganizo, transformo. Sinto um prazer imenso na readaptação de espaços.

Dizem alguns, que essa “mania” de mudar coisas de lugar significa que queremos modificar algo internamente. Podem até ter um fundo de razão, os estudiosos do comportamento humano. Outros encaram esse costume como característica dos voláteis geminianos, que com sua mo­bilidade veloz e peculiar, têm verdadeira aversão pelo sempre igual. Aliás, a rotina me desconforta tanto quanto andar com sapatos apertados.

Se, ao trocar de lugar coisas e fatos, consigo ter uma visão mais ampla e clara, saio lucrando. Se, ao desejar, inconsciente ou cons­cientemente, mudar certos detalhes de comportamento, começo por mexer na decoração do ambiente que me cerca, é vantagem.

Logo ali, passo do concreto ao etéreo e o movimento se processa de fora para dentro. Tudo acaba encontrando o seu devido lugar.

Tenho me descoberto mais leve, nessa ciranda de olhar a vida atual, variando de postura, mudando de lugar, sentando nos quatro cantos da sala e nos quatro cantos da alma.

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