Os brasileirinhos órfãos da pandemia

Manoel Jesus, educador.

Quando o Brasil chega à marca das 600 mil vítimas do coronavírus, o país sente que o avanço da vacinação, embora não seja no ritmo ideal, já consegue mostrar um refluxo no número de mortes. Ainda com a necessidade de continuar tomando todos os cuidados necessários para o convívio, a imunização lança uma boa perspectiva, sem abrir demais a guarda, aprendendo com aqueles mais afoitos que já se sentiam “seguros”, liberaram geral, e pagaram o preço de ter que voltar atrás. A pandemia que ocupa o nosso dia a dia dá lições e liga o sinal de alerta e de cuidados.

Os estudiosos começam a pensar no pós-pandemia, com as consequências que ficam em todas as áreas: o empobrecimento, especialmente daquela população que passava mais dificuldades; a educação, que durante este tempo teve arremedos de um processo que já vinha se deteriorando; até as relações de grupos sociais, religiosos, políticos, que viram o afastamento com uma forte preocupação. Mas também uma parcela ainda não dimensionada que não soube lidar com as restrições e tornou-se reclusa de seus medos, tendo como consequência o aumento da depressão.

Outros problemas ainda transitam pelos corredores silenciosos das estatísticas. Ali vão se revestindo de significado quando ganham rostos e corpos na realidade social. Infelizmente, o caso das crianças e adolescentes – na casa dos 113 mil brasileirinhos – que perderam o pai, a mãe – ou ambos, assim como uma avó ou avô, responsável pela sua guarda. No mundo, o número já passa de 1,5 milhões de órfãos, de acordo com estudo publicado pelo periódico científico Lancet. A perda é significativa porque representa a ausência de uma referência familiar, assim como do seu sustento financeiro.

Susan Hillis é pesquisadora de doenças infecciosas. Lidera um estudo que apontou o Brasil como o segundo país mais afetado pelo problema, atrás, apenas, do México. Avisa: “a cada 12 segundos, uma criança ao redor do planeta perde um dos pais ou um dos avós cuidadores por covid-19… Se você parar agora e contar até 12, é o tempo que basta para haver um novo órfão por covid-19 no mundo!” Classifica a orfandade deixada pela pandemia como uma “epidemia escondida dentro de outra”. Com muitas e dolorosas consequências para o desenvolvimento da criança ou do jovem.

Está na hora tomar medidas concretas com relação a esta parcela da população que não pode representar apenas mais um número nos noticiários. Cientistas alertam para a necessidade de intensificar a vacinação, prevenindo a morte dos pais; quando um deles for hospitalizado, ajudar a preparar a perda, com a mobilização governamental e de grupos sociais; e medidas públicas que atuem na proteção social. É bom que se pense na recuperação econômica do país, mas não terá sentido sem assegurar a subsistência daqueles que já foram chamados de “o futuro do Brasil”.

Perder um pai ou uma mãe por idade ou doença previsível tem o sentimento de separação que precisa de um longo tempo para ser aceito. A ausência brusca faz perder as referências e torna o menor um vulnerável na estrutura familiar. Não é somente uma questão política a ser resolvida, mas de humanidade, restaurando o próprio tecido social. Facho de esperança que conjure o melhor que se tem em cada um e minimize o sentimento de que, além de seus entes queridos, esta criança também ficou órfã de uma sociedade que a marginalizou, exatamente, quando mais necessitava…

 

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