
Uma tarde recebi um telefonema; um amigo pedia para que eu recebesse em Pelotas um jovem violinista, que estava à procura de um raro violino.
Bem jovem, o rapaz já tocava na Orquestra Sinfônica do Rio Grande do Sul (OSPA) e havia sido selecionado para um concurso internacional em Cremona, na Itália.
De início, explicou-me que, se levasse um violino como o que estava procurando, acreditava que teria mais chances de êxito. Estava na pista de um Cappa, feito na Europa no século XVIII, que pertencera à conhecida professora Olga Fossati, falecida há algum tempo.
Esta, nos últimos anos de sua vida, fora hóspede do Asilo de Mendigos. Apesar do nome – Asilo – ela não estava propriamente asilada. Alugava um dos pequenos apartamentos privativos que a instituição dispunha. Bastante simples e dignos.
Contou-me o violinista que, muito tempo atrás, Dona Olga emprestava esse mesmo violino para um musicista de Pelotas, que fazia temporadas com a OSPA e – só por isso – se sabia da existência desse violino mítico, seguidamente lembrado em Porto Alegre.
Procuramos em toda a cidade, da Biblioteca Pública ao Conservatório de Música, no cofre da Prefeitura (havia neste um violino, doado pela família Camorali, atualmente guardado no Memorial do Teatro Sete de Abril).
Fomos ao Asilo, onde umas freiras – bem antigas – lembravam bem da Dona Olga e seu instrumento musical, do qual não sabiam notícias.
Quando não restava mais tempo e o jovem violinista apareceu para se despedir – avisou que tinha desistido – perguntei detalhes específicos do violino, que pretendia seguir buscando.
Soube então que em Cremona, na Itália, na tabela dos grandes violinos fabricados por lá, pontifica o Stradivarius, sendo o Cappa o segundo nessa escala de excelência instrumental.
E quanto custa um Cappa, em boas condições de uso, ao preço de hoje?
Soube então que, à época, o último que havia sido comercializado em leilão, fora vendido por 600 mil dólares, e era esta a atual cotação internacional.
Desde então tenho examinado dezenas de violinos, estudado cada um deles cada vez que ponho os olhos e posso assegurar: continua perdido em Pelotas o Violino da Dona Olga.
Antes que alguém confunda com o infantil da Biblioteca, que lhe pertencia, este ela usava para ensinar crianças, não é esse – infelizmente – o dito cujo.
Ele continua perdido, talvez no fundo de algum armário, sobre uma mesa, numa gaveta, o raro violino Italiano.
Que pode, é verdade, ter servido de banquete a uma família de cupins, não tão raros assim.
Neste caso, seriam estes, sem dúvida alguma, os pelotenses que comeram a refeição mais cara da história da cidade.



