O vinho que vira vinagre…

Manoel Jesus, educador.

A Polícia Federal batizou mais uma operação. Mas não pensem que saiu à cata de corruptos, políticos do colarinho branco, traficantes ou qualquer outro crime já tão em voga. Para localizar e apreender o “meliante”, classificou de “borgonha”, a famosa região da França, produtora de vinhos do mesmo nome. Estavam atrás de duas garrafas do fruto da uva que, no mercado, são vendidas pela bagatela de 56 mil reais. Claro que qualquer um de nós tem uma delas sobre a geladeira e os servidores terceirizados que desviaram podiam, com seus salários, comprar algumas dezenas…

A notícia veio a público depois que o Ministério do Exterior fez uma checagem na sua adega/cofre particular e desnuda alguns dos costumes da nata de nossos administradores, que se estende também ao mundo do Judiciário e do Legislativo. Os salários e penduricalhos não são suficientes para saciar a vontade de espremer e colocar no bolso aqueles recursos que deveriam bancar os serviços públicos. Precisam, ainda, de mordomias como as que seguidamente os meios de comunicação denunciam, através de cardápios e serviços que poderiam ser bancados pelo próprio bolso.

Em contraste com os bem nutridos políticos e administradores, vê-se a sociedade desdobrar-se para enfrentar a fome, problemas de moradia, saúde, segurança… As campanhas para arrecadar alimentos e roupas já não são a exceção, mas a regra. Diariamente, seja pelas entidades das quais se participa ou pela mídia, organizações buscam sensibilizar para que se ajude a suprir a ausência do estado numa situação que se tornou rotina. Perdeu-se a capacidade de se indignar diante de casos em que famílias apresentam geladeiras vazias e crianças esperam por um prato de comida.

Diferentemente das regalias que deveriam escandalizar e serem punidas, assistem-se cenas como as da foto que viralizou pelo mundo em que um caminhão distribui ossos e restos de carne recolhidos em supermercados da capital fluminense. Os depoimentos são deprimentes. Uma desempregada contou: “tudo está muito caro. Venho aqui porque não tenho mais como comprar… é a nossa única maneira de comer carne no mês”. Para saciar-se dos restos, que, no mês passado não chegaram, anda cerca de uma hora e meia. É, literalmente, um crime que clama aos céus!

É preciso repetir: a pandemia somente piorou o quadro que já vinha mostrando a degradação social em que vivem as populações das periferias, especialmente nas grandes cidades. O desemprego, infelizmente, já se transformou em doença crônica, rondando 15 milhões de pessoas. Sendo que as estatísticas apresentam aqueles que não desistiram de procurar por um cargo remunerado. Estão fora destes números os que se conformaram com seu pouco estudo, não ter capacitação profissional, ser um daqueles grupos que sofre com discriminação, e já nem procuram mais…

Situação em que o vinho vira vinagre… Um amargor na boca por ver o quanto a miséria embrutece. Não consegue sensibilizar quem blindou cargos e funções dizendo serem “legais”, sem reconhecer que são imorais e injustos. Sociedade doente que não se revolta com os gastos de quem nós mesmos elegemos. O fim da pandemia não será o fim de nossos problemas. Resgatar a cidadania de quem chegou ao fundo do posso é caminho longo e difícil para igrejas, associações, sindicatos, partidos políticos. Pessoas de boa vontade que não abrem mão da prática da justiça… e da solidariedade!

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