
Não o conheci, mas soube que se chamava José, quando sua fama e sua história estavam sendo passadas de boca em boca.
Seus contemporâneos afirmavam que ele “tinha um parafuso a menos”. Boa pessoa, mas com uma necessidade incontrolável de promover as mais insólitas irreverências, segundo alguns.
Um belo dia – do nada – resolveu adentrar num vetusto clube social – na época exclusivíssimo – e, num lance cinematográfico, surrupiou um portentoso candelabro de prata.
O detalhe (que é onde o diabo mora): passados alguns dias, ninguém percebera.
Todos os dias José olhava as páginas dos jornais e nenhuma referência, absolutamente nada!
Não houve queixa na delegacia e as coisas continuavam como se ninguém tivesse percebido o furto.
Isso o incomodou sobremaneira, motivando-o a voltar ao clube, exigir reunião com o Presidente e, para surpresa deste e dos diretores que lá estavam, devolver teatralmente o candelabro de prata, em meio a um discurso eloquente sobre a facilidade com a qual executara seu feito, “ante a precária segurança daquele magnífico templo da Alta Sociedade.”
O Presidente do Clube era um homem ligado à Justiça. Furibundo, chamou a polícia.
José saiu algemado do Palacete centenário.
Os policiais que atenderam a ocorrência, o próprio delegado de polícia, perceberam imediatamente, que ele não era “ bem certo”, que não tinha antecedentes, que era apenas um “ louco manso, um saliente” no dizer de um deles.
Mas o presidente do Clube era homem da justiça. Não deixaria barato a afronta.
Se ele era louco e por isso não poderia ir para a cadeia, que fosse para um sanatório.
Para perplexidade de amigos, familiares e do advogado dele, foi recolhido a um instituto psiquiátrico forense, depois do processo motivado por seu atrevimento.
Para passar o tempo, que num hospício, parece ser mais longo, aprendeu a pintar.
Não dispunha de muito material além de pincel e tinta e por alguns anos ficou colorindo tábuas de caixotes, papelão de caixas de camisa e algumas poucas telas que conseguiu.
Sempre copiando, copiando e copiando ilustrações impressas nas revistas que conseguia.
Como poucos, entendeu Cézanne e Van Gogh, que pintaram de uma maneira cheia de significados que não lhe eram estranhos, pois conseguia perceber nas telas que reproduzia, coisas que ele também sentia. Por isso a facilidade da cópia, embora a ausência de equipamentos adequados e estudos aprofundados.
Nunca expôs suas obras, estas eram presenteadas a amigos, médicos, para o advogado que lutava para tirá-lo de lá e para sua professora de artes, impressionada pela revelação do seu talento.
Um dia ele saiu.
Mas o mundo não era mais como antes, ele agora entendia a normalidade que percebia nas telas e, cada vez menos, não encontrava normalidade nas ruas. Durante sua longa internação, tomou remédios e mais remédios. Seu organismo, pouco equilibrado, balançou de vez com efeitos colaterais.
Pouco tempo depois de “ter alta” faleceu na rua, durante uma caminhada pelo centro da cidade, encantado com a luz do sol refletindo nas casas coloridas, produzindo sombras em meio a um claro-escuro fantástico, que só ele conseguia decifrar.
Me contaram que foi um infarto fulminante, que o apagou, ironicamente, apoiado num poste de iluminação pública. Estranhamente, quase sorrindo, em meio ao frenético corre-corre das pessoas normais.
Algumas datas:
1° de fevereiro – Posse do ministro da Justiça Ricardo Levandowski. Senador Flávio Dino (PCdoB-MA) reassume cadeira no Senado.
9 de fevereiro – Encerram inscrições para o Concurso Nacional Unificado.
22 de fevereiro – Posse do ministro Flávio Dino no STF.
Alguns números:
500 mil – Brasileiros que obtiveram cidadania portuguesa entre 2010 e 2023.
1,57 milhão – Número de motos fabricadas em Manaus no ano passado.



