O desenho como forma de comunicação

Sérgio Corrêa, jornalista e radialista.

A partir de hoje, em algumas edições, a coluna será ilustrada por Ricardo Freitas, o “Donga”. Natural de Arroio Grande, Freitas é servidor público aposentado pela Corsan, onde exerceu o cargo de superintendente regional. Como escritor, produtor cultural e chargista, tornou-se conhecido nacionalmente no mundo da cultura e da comunicação pelo nome artístico “Donga”.

Em tempos de novas construções sociais, o processo de compreensão e interpretação textual vem sendo limitado por armas letais como vídeos curtos, textos pequenos, áudios curtos e rápidos e discussões rasas sem profundidade e conhecimento científico.

Sendo assim, ao trazer para a coluna o desenho, a charge como forma de comunicação, busca-se conceder o direito individual de interpretação. Esperamos contribuir para a construção do pensamento crítico individual, uma vez que a visualização de uma charge provoca uma experiência sensorial individual, retirando a pessoa de sua bolha de seu grupo que existe basicamente em razão do pensamento, da interpretação e da ação coletiva.

Fazer parte de um grupo e defender as mesmas ideias, oferece a sensação de amparo e pertencimento sem a obrigação de justificar cientificamente seu posicionamento individual. Sendo assim, a pessoa encontra no grupo um aspecto ideológico que lhe agrada, isto é, algo que ela pensa da mesma forma e, daí por diante, passa a defender a ideologia do grupo, sobretudo porque o pensamento do grupo é construído por líderes religiosos, políticos ou do setor produtivo, figuras de destaque que conferem a garantia moral, social e política e confiança necessária de todos que comungam do mesmo pensamento.

Ao longo da última década, com a divisão entre direita e esquerda, a constituição de grupos ofereceu uma zona de conforto a boa parte dos 30 por cento de analfabetos funcionais existentes no país. Estes podem opinar sobre política sem nenhum conhecimento, desde que reproduzam o pensamento do grupo. Assim, sentem-se soldados aprovados pelo grupo, não importando o pensamento contrário e a rejeição dos demais que se tornam inimigos naturais.

Para entender o que está sendo dito aqui a respeito dos efeitos causados pela falta do pensamento crítico individual, pelo comportamento das pessoas ao aderirem a grupos como forma de pertencimento, alimentando a divisão política, faremos o seguinte exercício de interpretação: um time de futebol nasce da paixão e gosto pelo esporte dentro de um bairro, de uma empresa, de um clube social e até mesmo dentro de uma família ou grupo de amigos. Assim, vai construindo ao longo do tempo, uma legião de torcedores e simpatizantes.

Dito isso, vamos pensar e filosofar! Atualmente, a construção de um time de futebol com uma grande torcida dependeria dos fatores citados acima? Creio que não! Acredito que bastaria criar um time afirmando que é de direita e criar outro afirmando que é de esquerda. Isso bastaria para conquistar torcedores, não importando outros fatores, pois cada torcida acreditaria que é a maior e que seu time é o maior, assim o efeito do grupo fica bem evidente.

Apresento-vos “Donga” e a charge do Exame nacional do Ensino Médio (Enem), onde o saber e o pensamento crítico individual, principalmente na redação, abrem as portas da universidade e de um futuro profissional.