No Dia do Trabalho, homenageando aqueles que foram a voz forte do rádio e dos jornais no interior, homenageamos todos os trabalhadores

Sérgio Corrêa, jornalista e radialista.

Além de homenagear aqueles que fundaram a comunicação na Zona Sul, aos leitores, desejo provocá-los a interpretar em que medida os relatos da coluna se assemelham ao que acontece no teu município, assim como os impactos causados pela falta de espaços para discussão de nossa realidade com direito a opinião.

A “extinção” dos comentaristas de opinião forte no rádio e nos jornais do interior não aconteceu por acaso. É o resultado de uma mudança estrutural na forma como o jornalismo regional é financiado e consumido. No passado donos de emissoras e locutores faziam política no sentido amplo da palavra tanto no microfone quanto na tribuna como detentores de mandato. Esse fazer política perdeu espaço para o pragmatismo comercial de sobrevivência.

Será esse um fenômeno visível na nossa região?

Do ponto de vista da localização geográfica, quanto mais no interior e menor o tamanho do município, o mercado publicitário privado costuma ser limitado. Grandes empresas regionais e até nacionais, anunciam em redes de TV, enquanto o comércio local permanece restrito a área de atuação e por conseguinte, sofre crises econômicas, então, sobram as Prefeituras, Câmaras de Vereadores, Governos do Estado e Federal como os maiores anunciantes.

A Opinião que Custa Caro                                                                                           

Atualmente um comentarista que critica duramente um prefeito ou uma política pública específica pode ser visto pela empresa de comunicação como um risco financeiro.

O Silenciamento Branco

O gestor público raramente pede para demitir o profissional de comunicação. Ele simplesmente revisa os investimentos publicitários daquela emissora. O dono do veículo de comunicação, para manter a saúde financeira da empresa, acaba optando por profissionais mais técnicos, neutros ou que apenas leem o que acontece, sem analisar o porquê acontece.

A Troca do Jornalismo de Opinião pelo Jornalismo de Entretenimento

As rádios do interior passaram por um processo de transformação chamado de infotenimento (mistura de informação com entretenimento).

Para evitar polêmicas que afastem tanto anunciantes quanto parcelas do público em uma sociedade hoje muito polarizada, as emissoras preferem uma neutralidade asséptica, isto é:  falar do tempo, dos buracos na rua e dos resultados do futebol, evitando a crítica política estrutural. O antigo comentarista, que estudava o orçamento público e a legislação, foi substituído pelo locutor que apresenta música, lê notícias de portais e interage com o WhatsApp. A profundidade dá lugar à velocidade.

O Vazio na Democracia Local

O grande problema desse processo é que a população perde o seu tradutor. O comentarista de opinião forte era quem explicava para o cidadão como uma decisão da Câmara de Vereadores ou do executivo afetaria a vida dele.

Sem esses profissionais, o jornalismo regional corre o risco de se tornar apenas uma grande assessoria de imprensa de quem está no poder, publicando apenas o que é “oficial” e ignorando o que é real.

Quando o trabalho deixa de ser um vetor de transformação social e passa a ser apenas meio gerador de lucro para alguns e subsistência para outros, cresce a desigualdade social, o desinteresse pela política e a manutenção daqueles que estão no poder. Talvez esse cenário traduza nossa falta de representação política na assembleia legislativa e na Câmara Federal e Senado.

Todo e qualquer trabalho é capaz de mudar o lugar em que vivemos, a partir desse lugar, mudamos o mundo!