Não é à toa que o dito diz que a dor ensina a gemer

Elis Radmann, cientista social e socióloga.

Pesquisar o comportamento da sociedade é compreender as mudanças em cursos e, principalmente, entender quais são os influenciadores dessas transformações. Não podemos pensar que há uma única explicação para o aumento do individualismo e o avanço do fenômeno da “individuação”, que estimula o egoísmo e a ideia de que não precisamos dos outros.

Para entender o que está acontecendo com jovens que acreditam que “precisam ser servidos, mas não têm obrigação de servir”, temos que analisar os últimos dois ciclos geracionais, em especial, dentre a população de menor renda e que representa a maior parte da população.

Para fazer este exercício mental vamos pensar, primeiro, na geração BB (Baby Boomer), que nasceu após a Segunda Guerra Mundial. Essas pessoas tinham muitas restrições econômicas, dificuldade de aquisição de bens básicos como roupas e utensílios domésticos. Como tinham baixo nível de educação formal, atuavam em atividades braçais, mal remuneradas. Diante desse cenário, criaram seus filhos com dificuldades econômicas, mas com muita perseverança, valores e crenças. Estimularam os mesmos a construírem a sua vida e a sua independência.

Assim, emergiu a geração X, composta por pessoas que nasceram até 1980. A geração X foi orientada a trabalhar, a conquistar, a superar as dificuldades e ampliar a sua capacidade econômica. A geração X trabalhou muito e aguentou muitas mazelas. Além disso, a conjuntura social e econômica do país também ajudou esta geração.

A geração X teve mais acesso à educação, oferta de emprego e infraestrutura. Pode comprar parcelado, conheceu a estabilidade econômica e melhorou o seu padrão de vida. Tinham a ideia de que seus filhos não iriam passar pelo que passaram, começando um processo de apoio e proteção que não tiveram.

E, neste quadro, temos o fenômeno sociológico que está associado à superproteção geracional. Uma geração que sempre quer dar a outra geração a capacidade de evolução. Desejamos que os nossos filhos sejam melhores do que nós.

A geração Y chegou e foi servida pela geração X. Estes pais cuidaram dos seus filhos com muito esmero, dando todo carinho que o tempo permitia, mas, principalmente, ofertando as condições econômicas que não receberam. Incentivando a estudar e orientando a buscar uma ocupação digna de sua formação. Apoiando o filho a desistir de um emprego em que este se sentisse pressionado ou indicando a troca de escola quando havia um conflito. Desistir se tornou um processo normal, dentre as várias escolhas possíveis.

A geração BB dizia para geração X que ela precisava trabalhar e enfrentar as dificuldades. A geração X diz para a geração Y que ela não precisa se preocupar. E o feitiço está virando contra o feiticeiro.

A geração que foi e está sendo protegida por seus pais, não foi ensinada a superar dificuldades e a persistir. Assimilou a premissa de que tem direitos, mas não teve a mesma orientação em termos de deveres. Estes jovens foram e são servidos por seus pais e se tornaram adultos que têm a percepção de que não precisam servir. Adultos que moram com os pais e dizem que não pensam em cuidar dos pais porque eles “sabem se virar”.

O senso comum tem um ditado que diz que a dor ensina a gemer. O futuro irá nos mostrar os próximos capítulos da vida real.

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