Menos política, mais governo

Elis Radmann, cientista social e socióloga.

O desejo do eleitor parece tão simples e ao mesmo tempo aparenta ser tão difícil, quase impossível.

Quando se pensa em briga política, polarização ou radicalização, estamos falando de ¼ da população que manifesta uma ideologia intensa ou se posiciona em uma lógica de embate ou conflito permanente.

Quando se coloca a lupa no RS ou Brasil, quase metade da população não manifesta nenhuma tendência ideológica e outro ¼ tem suas ideias ou avalições políticas, mas não têm o hábito de discutir política, muito menos nas bolhas digitais do mundo virtual.

Nas pesquisas de opinião realizadas pelo IPO – Instituto Pesquisas de Opinião, a maior parte dos entrevistados deseja que os projetos de governo sejam continuados, que as políticas públicas ou as obras de qualificação sejam pensadas para um grande ciclo e que essas ações tenham continuidade, independente do governo.

Na prática, sinalizam a necessidade de uma política de estado, de cidade. Que se defina, em conjunto com as bases, onde se está e para onde se quer evoluir.

Vamos pensar em exemplos práticos, sem entrar no mérito de ideologias. A informatização do sistema de saúde pública é um desses grandes temas. Para a população que utiliza o SUS não faz sentido ter que andar com a “sacolinha dos exames”, das receitas e de toda documentação de uma vida, pois o médico que está atendendo na UBS, na UBAI, na UPA ou no Pronto Socorro desconhece o histórico do paciente. E se o paciente mudar de cidade, pior ainda! Nesse exemplo, a informatização nacional do sistema de saúde é uma política de país, que deve integrar estados e municípios, para além dos interesses ou ideologias dos governantes.

A inovação e a tecnologia são temas que preocupam uma parcela importante da sociedade, também no mundo do trabalho. Os entrevistados esperam que haja uma política pública educacional que compartilhe as transformações digitais em curso, preparando os mais jovens e os mais maduros para as novas tendências do mercado de trabalho.

E quando a reflexão está associada às obras de infraestrutura e mobilidade urbana os entrevistados têm a “certeza” de que se coloca muito dinheiro fora, com obras morosas, inacabadas, de baixa qualidade ou realizadas em locais não prioritários. A escuta ativa mostra que cada grupo social tem a sua demanda. O morador da periferia carece de obras de base, do esgoto até o calçamento. O setor produtivo se preocupa com as condições estruturais para a competitividade e o escoamento da produção. Todos querem ver o desenvolvimento social e econômico de sua região ou cidade.

Para o eleitor mediano, que não se envolve em política, as decisões têm sido tomadas levando mais em consideração os interesses de um grupo político do que a avaliação e planejamento das necessidades de uma região, cidade ou bairro. E é isso que precisa mudar! É necessária uma visão estratégica de médio e longo prazo, um projeto de bairro, de cidade, de região, de estado e de país.

Um governante tem que primar pelo bem comum, o bem de todos que governa. Para isso, precisa estabelecer políticas públicas que atendam esse propósito. O governante seguinte tem que indicar como avançar. Para o eleitor, avançar significa “ir para a frente”, sem abandonar as conquistas ou deixar obras inacabadas.

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