Feminicídio: o verniz social e o porão do inconsciente

Manoel Jesus, educador. (Foto: Divulgação)

Na entrevista concedida ao Jornal do Almoço, da RBS TV (sá­bado/23), o ator Dan Stulbach manifestou um sentimento que ecoa com força nos bastidores da segurança pública e das ciências sociais: a frustração. Com histórico de engajamento em diversas campanhas institucionais de conscientização contra o feminicí­dio, o artista desabafou sobre a aparente ineficácia dos esforços midiáticos diante de indicadores que insistem em não recuar. O questionamento implícito na fala de Stulbach impõe uma reflexão profunda: por que a massificação da informação não estanca (e di­minui) a violência de gênero?

O debate público costuma orbitar em torno de uma tríade funda­mental: educação, segurança pública e cultura. No campo da segu­rança, os avanços legislativos e punitivos, a exemplo da Lei Maria da Penha e do endurecimento penal do feminicídio, dotaram o Estado de ferramentas robustas de coerção. Contudo, a ação policial atua majoritariamente no plano da consequência, sendo incapaz de in­terceptar a gênese psicológica do agressor. No âmbito educacional acadêmico, o cenário também se mostra complexo, visto que as estatísticas criminais não discriminam estratos sociais, níveis de renda ou graus de instrução. Homens diplomados e integrados ao mercado formal de trabalho figuram nas mesmas planilhas de vio­lência que indivíduos marginalizados.

Isso ocorre porque o nó górdio do problema reside na dimensão cultural e, mais especificamente, nos porões do inconsciente co­letivo. O conceito da mulher como um apêndice do homem perma­nece arraigado em mentes de todas as classes sociais. Trata-se de uma percepção atávica de propriedade e subordinação que resiste ao verniz da modernidade e do discurso politicamente correto. O indivíduo pode dominar a retórica da igualdade no espaço público, mas sabota esses princípios na intimidade do ambiente doméstico.

Enquanto o laço conjugal se mantiver associado a uma ideia de posse patrimonial, a ruptura desse vínculo — seja pelo divórcio ou pela emancipação civil da parceira — será interpretada pelo agres­sor como uma mutilação de si mesmo. A violência surge como a reação desesperada e doentia de quem se recusa a aceitar a auto­nomia do outro. Desconstruir essa herança arcaica exige mais do que anúncios de trinta segundos ou penalidades severas; demanda uma intervenção psicossocial profunda na formação da identidade masculina, sob pena de continuarmos a assistir à falência da civili­dade diante do que é uma chaga social transformada em barbárie.