Uma das muitas dívidas sociais que já aparecem e que vão se acirrar quando (e se…) a pandemia passar se refere à educação. Os dois últimos anos não são a causa dos nossos muitos problemas nesta área, mas acirraram as deficiências, especialmente, na atividade pública. A escola, como lugar privilegiado para o ensino e referência social, cultural e das relações humanas, foi um dos primeiros ambientes a serem abandonados à própria sorte. O futuro dos pequenos cidadãos – crianças e jovens – entrou na fila onde se privilegiam espetáculos futebolísticos e campanhas eleitorais, por exemplo.
Há muito tempo, educadores reivindicam a transformação destes espaços em lugares onde as aulas convencionais sejam parte de um todo, olhando para as necessidades básicas das crianças, desde a sua alimentação e higiene, primeiros valores, até o acesso a esporte e cultura. Uma forma de preservar a integridade daqueles que, em muitos casos, ficam sob o olhar atento de um diretor, um professor, um funcionário, podendo impedir casos de agressão ou, como se deu recentemente, de que, na ausência das aulas, a permanência em casa levasse alguns ao espancamento e à morte.
A Igreja Católica lança a Campanha da Fraternidade, abordando o tema da Educação, com o lema “Fala com sabedoria, ensina com amor”. Vive, também, o tempo da Quaresma e a mobilização sinodal. Tenho dúvidas se a instituição tem “pernas” para enfrentar três frentes diversificadas e necessitadas de tanta atenção, não apenas em discussões acadêmicas, mas prática pastoral de inserção nos meios mais carentes. Educar para a fraternidade e o bem comum responsabiliza a todos pelo processo de evangelização e é desafio que precisa de quadros que a Igreja não tem.
Num tempo de tantas carências, é difícil fazer com que crianças e jovens vejam sentido no processo educacional se não encontrarem educadores que os ajudem a vislumbrar caminhos. Uma linguagem inadequada, assim como espaços e professores despreparados não é propriamente um elemento motivador para que vejam na escola um lugar onde delinear seu futuro. Infelizmente, a rua se transformou em lugar de maior atrativo, respondendo mais às suas perspectivas de vida. A pandemia apenas aguçou o fosso existente entre as classes sociais e o seu acesso aos bens elementares.
A Igreja Católica também tem problemas nesta área. O processo de catequese está longe de auxiliar no discernimento, por exemplo, do que se celebra em torno da “mesa da Eucaristia” (o ágape), quando as crianças, muitas vezes, nem sabem o que é isto, em suas casas; não está acostumada a compartilhar, porque não tem espaços de interação social (o lúdico); não sabe cuidar da casa comum, porque não tem acesso a um cantinho de jardim ou horta onde se encante com a vida que surge da terra. Vê histórias de solidariedade nos livros que não encontram eco na vida real…
Muito se falou de que a educação é o espaço de oportunidades para todos. Infelizmente, também neste caso, há privilégios e preconceitos. A pandemia pode ser o tempo oportuno para repensar a educação formal e a que deve ser feita na família, igrejas, sindicatos, associações. Triste, mas, em muitos casos, a luta pela sobrevivência minou o direito a uma perspectiva de vida. Valores básicos, como a liberdade, perde-se na vala onde, na volta às atividades presenciais, centenas de alunos estão longe dos bancos escolares, porque necessitam auxiliar os pais a buscar o sustento da própria casa…




