Ciclos

As palavras fazem um rodízio e me convidam a dançar nas frases que escrevo. Um ciclo que não sei ao certo quando começou. Talvez, quando fui alfabetizada e me inseri no universo das letras. Mal sabia eu que o convívio se alongaria sem direito a pausas porque as palavras desconhecem intervalos.

Elas se estendem como tapetes desenrolados me provocando a desenredar de suas teias o cotidiano da vida corriqueira e, mesmo assim, sempre renovada.

O ciclo não se interrompe. Se refaz, se reinventa, transborda em suspiros, vagueia entre pensamentos e me envolve com seus caprichos para que eu siga escrevendo sobre emoções e sentimentos.

Emoções inaugurais como a do nascimento de um filho, a do livro editado, a do emprego conseguido, a do resultado da aprovação no concurso, a da segunda chance, a dos aplausos ao fim do espetáculo encenado, a do abraço inesperado, a do amor descoberto num olhar, a de um beijo roubado. Emoções novas e antes nunca experimentadas.

O ciclo da vida nos surpreende e segue sua rota alheio a nossa vontade e aos nossos planos. Aliás, ele tem seus próprios planos. Só precisa deixar a linha solta ao vento para assistir o passo a passo de cada etapa.

E há, também, as emoções que nos acompanham do abrir ao fechar os olhos, emoções suaves como a de assistir ao banho de um passarinho na poça de água da chuva, a de ver o pôr do sol em silêncio e sem companhia, a de rece­ber o carinho de uma palavra sútil e oportuna, a de terminar uma tarefa com êxito, a de descobrir um sorriso inesperado. Pequenas e inumeráveis emoções que, muitas vezes, escapam a nossa percepção.

Impossível deixar de lado os ciclos das lágrimas e dos risos que se justa­põem e, por não serem estáticos, precisam que se os vivenciem por inteiro, evitando rupturas em seus movimentos até que se esgotem.

Os ciclos são extremamente cuidadosos e nos impedem de fugir do círculo já traçado. Uma vez que nos enveredemos em seus labirintos nos tornamos cativos de seus mistérios.

Tantas e quantas vezes, perguntamos a nós mesmos para onde vamos nes­sa vivência de ciclos. E eu não sei explicar ainda a razão de ser refém de um enredo que desempenho obediente apesar de, vez ou outra, provocar algumas discussões cheias de argumentos.

Ao final, me submeto a perspicácia das sequências e consequências do ciclo que me é destinado viver e, no mais íntimo de mim, deponho minhas armaduras e deixo o dia a dia me levar como folha ao vento.

Resistir? Nem pensar! Fora de cogitação, porque as palavras fizeram um pacto de boa vizinhança sem beligerância comigo. Somos parceiras nesse ciclo de escrita. Elas e eu, como amigas inseparáveis, cúmplices rebeldes, coautoras pacíficas de uma mesma vida comum, recomeçando a cada dia, superando os revezes e acreditando nos planos do ciclo em que estamos inseridas.

Novas emoções são bem-vindas no ciclo que compartilho com quem me lê. As palavras agradecem a companhia de todos, e eu também.

2 comentários

Enviar comentário

Envie um comentário!
Digite o seu nome