Chance

Oportunidades acontecem no correr dos dias, dos meses, dos anos pela vida afora. Em uma autossabotagem sistemática, se evita arriscar o certo pelo duvidoso e chances são negadas. Falta coragem para mudar o estabelecido e acomodado como regra de viver sem maiores riscos.

Essas possibilidades que rondam nossa porta, nossa rota, nossa vida, são frutos do acaso do espaço ou do previsto pelo tempo. Estar no lugar certo na hora exata e aproveitar a ocasião são pura sorte. Simples soma de linhas convergentes traçadas no plano do intangível.

Quando se trata, porém, do subjetivismo das chances que precisam ser provocadas de dentro para fora, que precisam se tornarem realidade, saindo do plano do ideal, tudo muda de figurino.

Dar a si mesmo a chance de recomeçar, de fazer de novo, de partir do ponto zero não é atitude costumeira.

Nos labirintos do universo pessoal se anestesiam vontades, planos e sonhos que adormecem e ficam relegados a um futuro que quase nunca se torna presente.

Desde o desejo de caminhar com os pés descalços na grama úmida no amanhecer até o aprender a tocar violino. Do mais comum ao mais inusitado, o que acha de dar a você mesmo inúmeras chances de praticar o ato de viver em plenitude?

Desengavetar planos tem sido, nos últimos tempos, minha atividade preferida. Abrir portas e janelas nessa alma que se recusa a ficar estática. Novas paisagens têm me encantado, motivando ímpetos de descobertas saboreadas com intenso prazer.

Tudo pelas chances permitidas e consentidas que tenho dado a mim mesma.

Voltar a escrever poesia como quem retoma a pintura de uma tela e dá chance ao inédito, me surpreende com um sorriso no olhar que supostamente havia perdido.

Dar outra chance, de igual maneira, aos sentimentos. Que todos aflorem autênticos na espontaneidade que foi sufocada na mesmice do dia a dia.

Nunca é tarde demais para dar chance a si mesmo; para permitir que a novidade chegue como dádiva embrulhada em risos esquecidos, em gestos omitidos.

Chance de espantar o medo da desacomodação, chance de sair da zona de conforto.

Penso que o melhor, o conveniente e prático, é aproveitar as chances gratuitas. Aquelas que só dependem da própria vontade.

Chance de exercitar a paciência com os imprevistos desconfortáveis, dando oportunidade ao conserto do passar das horas.

Chance de sorrir mais, de cantar alto, de dançar muito, de amar além, de abraçar outra vez, de compreender apesar, de acarinhar sempre.

Dar qualquer chance a si mesmo aumenta a probabilidade de sucesso no aprendizado de dar chance aos outros.

E dar chance aos outros é um bom começo para conceder chance a si mesmo. Nunca é tarde. Sempre é tempo. A prática trará a habilidade.