Bolsonaro não é do povo, ele é povo!

Elis Radmann, cientista social e socióloga.

É normal que políticos populares sejam reconhecidos como candidatos ou representantes do povo, alguém que fale pelo povo, em nome do povo. Nesses casos, há uma certa identificação. O eleitor reconhece a simplicidade do candidato, percebe verdade em suas falas e se sente contemplado por seus exemplos ou soluções políticas para problemas estruturais ou históricos.

O ex-Presidente Lula é um dos expoentes desse grupo. Tem o perfil de um político que nasceu da base do povo e fala em nome do povo. Os eleitores avaliam que ele sabe quais são os problemas nacionais e tenta resolvê-los. Mas reconhecem que ele está em outro patamar social, há muito tempo não é alguém do povo.

Curiosamente, o Presidente Bolsonaro criou uma nova categoria representativa. As pesquisas qualitativas demonstram que os eleitores de baixa renda, sem identificação ideológica e que simpatizam com o Presidente, criam a diferenciação entre SER DO POVO e SER POVO e fazem essa afirmação: Bolsonaro não é do povo, ele é povo!

Decupar essa afirmação foi uma missão dos sociólogos do IPO – Instituto Pesquisas de Opinião. Afinal de contas, onde está a diferença semântica?

Para esses eleitores, Bolsonaro é povo porque é destemido, fala o que pensa, ataca o que está errado e, principalmente, faz o discurso antipolítica. Se expressa em uma entrevista como uma pessoa do povo, como uma pessoa que está em um churrasco, tomando cerveja e falando mal dos políticos. Os palavrões também são percebidos como uma marca popular, que mantém seu elo com o povo. Até a caneta Bic tem um significado, faz parte desse arcabouço simbólico. “Ele é um de nós, reclama da mesma forma e até usa a caneta Bic”.

A autenticidade lhe confere legitimidade. Os simpatizantes do Presidente não acreditam que esse posicionamento seja fruto de uma estratégia de marketing político. “Bolsonaro é assim, ele é povo”. Seu comportamento e espontaneidade peculiar, fora do protocolo presidencial, é seu cartão de visitas e sua principal marca. Essa narrativa ímpar, muitas vezes crítica, tensa e impiedosa, lhe confere a premissa de corajoso. Não é alguém que fala em nome do povo, ele fala COMO o povo, fala O QUÊ o povo fala e da FORMA como o povo fala.

Uma citação exprime bem esse cenário: “Às vezes ele até fala demais, mas isso é o diferencial dele. A transparência dele faz com que as pessoas debatam sobre ele. Virou alvo de debates. É 8 ou 80, ou tu gostas ou não gostas”.

A narrativa natural e autêntica das entrevistas e dos discursos do Presidente ativa o dito popular: “fale bem ou fale mal, mas fale de mim”. Esse contexto simbólico de seu posicionamento o coloca na mira dos debates, como tema central das bolhas digitais e até mesmo como pauta contínua das mídias. A intensidade de suas frases “causam” análises, interpretações e sentimentos dicotômicos. Tem aquele que se sente representado, que ama suas afirmações incisivas e diretas e tem aquele que se sente desrespeitado, subjugado por suas expressões.

A eleição de 2022 promete ser histórica e radicalizada: um candidato que é do povo e o outro candidato que é o povo.

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