A última morada do sr. Lourenço

José Henrique Pires licenciado em Estudos Sociais pelo ICH-UFPel, especialista em Políticas Públicas pela Universidade de Salamanca, Espanha, jornalista e radialista. (Foto: Divulgação)

Quando narrei aqui algumas homenagens recebidas em Pelotas pela Princesa Isabel, que circulou bastante naquela temporada gaúcha em 1885, alguns leitores ficaram curiosos com o destino que teria tido a forte fábrica de móveis de luxo que havia na cidade, pertencente ao sr. Lourenço Vinholes.

O que teria acontecido com aquela pujante empresa, a qual era citada pelo Correio Mercantil da época como importante “oficina de colchoaria e tapeçaria” e que agradou muito a Princesa e sua comitiva?

Sua majestade, inclusive, levou daquela fábrica, em sua bagagem para o Rio de Janeiro, um belo genuflexório estofado para apoiar seus joelhos no momento das rezas cotidianas em sua capela particular.

Com móveis de alta categoria e com clientes nesse patamar, o que teria sido feito daquela fábrica, perguntaram.

Muito bem, vamos aos fatos: os móveis estofados e forrados com padrão internacional eram tão bons que, feitos em Pelotas, eram exportados para a Europa naqueles anos do século 19. Bastante organizado, o estabelecimento do sr. Lourenço tinha uma filial na cidade de Santos (SP), onde algumas peças também eram produzidas. A logística era perfeita, com o vai e vem dos navios entre o porto de Rio Grande e o de Santos, era possível abastecer o mercado brasileiro e exportar produtos. Lourenço já havia morado em Santos e conseguiu um bom sócio por lá, depois voltou ao Rio Grande do Sul. Como o empresário pelotense era muito bom em vendas, aproveitava as ocasiões das remessas de encomendas, ia no navio, fazia as grandes entregas e recebia o dinheiro. E também fazia propaganda dos produtos, geralmente retornando com a lista de novos pedidos.

Ou seja, a firma ia bem, gerava empregos diretos em Pelotas e em Santos.

Um dia, em uma dessas viagens com destino a Lisboa, Lourenço adoeceu.

Na escala no Arquipélago da Madeira, ele foi desembarcado e – tão adoentado estava – que lá mesmo faleceu.

Seu sócio paulista ia na mesma viagem e enfrentou aquele infortúnio vendendo alguns móveis por lá mesmo, levantando os recursos necessários para comprar um jazigo perpétuo, organizar um funeral digno e mandar colocar uma bela lápide na sepultura do empresário pelotense ali falecido.

Verdadeiro motor da empresa, vendedor nato, Lourenço era uma espécie de departamento de Marketing da fábrica de móveis, que não resistiu muito tempo após seu sepultamento, encerrando definitivamente suas atividades logo em seguida.

O falecido permanece até hoje sepultado por lá, no descanso eterno do seu jazigo perpétuo, em um antigo campo santo na Ilha da Madeira, próximo ao local coincidentemente conhecido como A Ponta de São Lourenço.