A moça que gostava do café quente

José Henrique Pires licenciado em Estudos Sociais pelo ICH-UFPel, especialista em Políticas Públicas pela Universidade de Salamanca, Espanha, jornalista e radialista. (Foto: Divulgação)

Ela era estudiosa, muito trabalhadora, respeitada pelos vizinhos, que a conheciam também pela maneira cuidadosa com a qual tratava o avô idoso.

Mas não era pessoa de sorrisos largos, conversas nos muros, abraços intensos. Nisso, ela diferia da vizinhança, pois era reservada, comedida, discreta.

Mas todos sabiam – uns contaram para os outros – que ela tinha uma estranha mania, o seu peculiar café preto. Ou melhor… A sua maneira peculiar de tomar uma xícara de café com água – nunca café com leite – sempre à noite.

Pensando bem, nem era um café diferente daquele que todos tomavam em casa. Era o ritual que atraia atenções.

Acontecia assim: ela servia meia taça com um café recém passado, muito quente. Completava a infusão com uma água fervente, e as pessoas que viam ficavam impressionadas. Fumegava a enorme xícara.

Não percebiam que ela evitava o café com temperatura escaldante. Ela gostava de passar calmamente a manteiga no pão, colocar um pouco de geleia numas bolachas e pensar na vida enquanto aquele perfume maravilhoso de café novinho tomava conta do ambiente e o conteúdo servido ia resfriando.

Quando concluía aquele ritual preparatório, o café estava moderadamente quente e era tomado de maneira rápida, em meio a pães e bolachas.

E sempre que alguém aparecia à noite para conversar com seu avô, davam um jeito de passar por ela e dizer mais ou menos assim:

“Bah! Mas que café bem quente! Vais acabar morrendo!”

Eles já sabiam o que ela invariavelmente diria:

“Ah, tá! Me deixa!”

E os mirava nos olhos inconvenientes, que sempre saíam de perto. Era uma provocação boba, mas curtida naquela quadra da cidade.

Um dia, o avô levou um visitante na porta, esqueceu de fechar e bem na hora que ficou pronto o café daquela moça entrou um ladrão com uma faca na mão.

Chegou ao lado da mesa, anunciou que era um assalto e ela disse:

“Ah, tá! Me deixa!”. E encarou o assaltante, que ao contrário dos visitantes abelhudos, não baixou os olhos nem caiu fora.

Ela não teve dúvida: pegou a xícara e arremessou aquele café quentíssimo no rosto do ladrão, que deu um grito, levou as mãos à cara e saiu da casa aos pontapés e bofetões desferidos por aquela moça que apreciava café quente.

A vizinhança correu, prenderam o homem, veio a polícia e o levou. Era um perigoso foragido do sistema penal que entrou na primeira casa que encontrou aberta.

Desde então, nunca mais alguém se atreveu a fazer qualquer referência ao café daquela moça.

Afinal – perceberam todos os provocadores – correram sérios riscos, estiveram à beira de um ataque de fúria, daquela moça séria, comedida e discreta, que apreciava seu café bem quente.