A atualidade do nacionalismo anti-imperialista e a resistência cubana

Luciano Luz de Lima, advogado e mestre em Ciência Politica. (Foto: Divulgação)

Em um mundo marcado por profundas assimetrias de poder, a questão nacional permanece central para a análise política. Longe de ter sido superada pela globalização, ela ressurge sob novas formas, especialmente nos países periféricos, onde a luta pela soberania continua a ser atravessada pela pressão das grandes potências. Nesse contexto, a experiência de Cuba se destaca como um dos exemplos mais duradouros de resistência anti-imperialista contemporânea.

Desde a vitória da Revolução em 1959, Cuba tem enfrentado um conjunto persistente de adversidades impostas pelos Estados Unidos, que vão desde o bloqueio econômico, vigente há mais de seis décadas, até tentativas diretas e indiretas de desestabilização política. O embargo, longe de ser uma mera sanção comercial, constitui um mecanismo sistemático de asfixia econômica, com impactos concretos sobre o desenvolvimento do país, limitando seu acesso a mercados, crédito internacional e tecnologias. A isso se somam episódios históricos como a Invasão da Baía dos Porcos, que evidenciam a disposição de intervenção direta para conter a consolidação de um projeto soberano no Caribe.

Para compreender essa dinâmica, é fundamental recorrer à concepção de imperialismo desenvolvida por Vladimir Lenin. Em sua obra clássica, o imperialismo é definido como a fase superior do capitalismo, caracterizada pela concentração do capital, pela fusão entre capital bancário e industrial (o capital financeiro) e pela exportação de capitais para regiões periféricas, onde a taxa de lucro tende a ser maior. Nessa etapa, as grandes potências não apenas disputam mercados, mas também zonas de influência, subordinando economicamente países inteiros e limitando sua autonomia política.

Sob essa lente, a relação entre Estados Unidos e Cuba não pode ser interpretada como um simples conflito bilateral, mas como expressão concreta das contradições estruturais do capitalismo global. A resistência cubana, portanto, assume um caráter que vai além da defesa territorial: trata-se de um enfrentamento à lógica de subordinação imposta pelo sistema imperialista.

É nesse ponto que o debate sobre nacionalismo se torna decisivo. Nem todo nacionalismo é igual, e uma análise precisa exige distinguir suas formas concretas. De um lado, há o nacionalismo de caráter reacionário ou fascista, que se fundamenta na ideia de superioridade nacional, frequentemente articulado a projetos expansionistas, xenófobos e autoritários. Esse tipo de nacionalismo não apenas reforça hierarquias globais, como também serve aos interesses das classes dominantes, canalizando tensões sociais internas para inimigos externos.

De outro lado, há o nacionalismo progressista ou anti-imperialista, que emerge como instrumento de luta dos povos oprimidos. Trata-se de uma forma de afirmação coletiva que busca garantir o direito à autodeterminação, à soberania e à construção de um projeto nacional autônomo. Nesse sentido, o nacionalismo cubano não se orienta pela dominação de outros povos, mas pela resistência à dominação externa, o que o aproxima das lutas de libertação nacional que marcaram o século XX na África, Ásia e América Latina.

A atualidade desse debate é inegável. Em um cenário internacional ainda estruturado por relações desiguais, a experiência cubana revela tanto os limites impostos pelo imperialismo quanto a possibilidade concreta de resistência. Mesmo diante de restrições severas, o país conseguiu avanços significativos em áreas como saúde e educação, demonstrando que a soberania nacional, embora custosa, pode abrir caminhos alternativos de desenvolvimento.

Assim, o nacionalismo anti-imperialista não é um resquício do passado, mas uma ferramenta analítica e política indispensável para compreender as disputas do presente. A resistência cubana, longe de ser um caso isolado, continua a revelar as contradições de um sistema que, ao mesmo tempo em que se apresenta como universal, depende da desigualdade para se reproduzir